
Ouvimos a prece e a revelação prodigiosa da "baraka".
Das "Mil histórias sem fim..." é esta a trigésima sétima. A boa consciência é um tesouro. Lida a trigésima sétima restam apenas novecentas e sessenta e três.
Uma tarde, lembro–me muito bem, corria sobre as terras quentes do Iraque o mês do "Babilelaval", achava–me a fumar descuidado à porta de minha casa, observando as andorinhas que cruzavam os céus, quando de mim se acercou um viajante. Suas vestes modestas não denunciavam desmazelo; do rosto, manchado pelo pó das estradas, transparecia certa nobreza. Pesava–lhe sobre o ombro esquerdo, um fardo escuro apertado por uma correia amarelada e, pendente da cintura, um punhal recurvo.
Estacou, respeitoso, a pequena distância, inclinou ligeiramente o busto e proferiu com um ligeiro sotaque africano o "salã" dos peregrinos cairotas (naturais do Cairo):
– Seja Allah o teu guia e o teu amparo! Que a alegria brilhe sempre nos olhos de teus filhos e a paz resida perene em teu coração!
Encantou–me a delicadeza daquele forasteiro. Suas palavras tinham a harmonia de uma fonte sussurrante.
– É pessoa finamente educada – pensei. E tudo nele pareceu–me distinto e sóbrio, desde o turbante desbotado até as babuchas enegrecidas pela lama do caminho.
E emprestando à minha voz todas as cambiantes da simpatia, retribui a sua saudação:
– Allah yimessikum bil–kheir! Precisas de meu auxílio? Imenso será o meu prazer em ajudar–te!
O viajante descerrou os lábios num sorriso de intenso júbilo. Lia–se–lhe no semblante abatido o drama da fadiga insofrível.
– Allah sobre ti e ao redor de ti! – respondeu com certa cerimônia. – Aceito de bom grado o teu generoso acolhimento. Sinto–me, realmente, exausto e desejaria repousar aqui algumas horas, antes de prosseguir jornada!
– Esta casa é tua, ó irmão dos árabes! – confirmei, sem hesitar. – Aqui terás (Allah seja louvado!) um pouco de pão, água fresca e tâmaras doces.
O cairota (devia ser um cairota!) com sincero suspiro de alívio, com bagas de suor a cair do rosto, arriou o fardo, inflectiu os braços e agitou o ombro dormente, como faria um carregador na feira ao dar por findo o esfalfante carreto.
Tomei–o com simplicidade pelo braço e conduzi–o para o interior de minha casa. Convidei–o a sentar–se e obsequiei–o com reconfortante merenda: pão, bife de carneiro e coalhada fresca.
– Estás só? – perguntou–me circunvagando o olhar por todos os recantos da sala numa observação muda, mas certamente indiscreta e intencional. Percebi que toda a sua atenção convergia para um narguilé de prata que rebrilhava perto da porta entre um pequeno alaúde e dois escudos persas. Aquele narguilé era o adorno mais precioso de minha casa.
Sim, eu estava só. Inteiramente só. Minha esposa, na véspera, havia seguido – juntamente com os filhos e duas servas – para o oásis de Beni–Soad onde moravam alguns parentes nossos. Concluídas algumas tarefas, deixaria também a casa e iria repousar nas montanhas, longe da vida tumultuosa e do calor de Bagdá.
E, enquanto desfiava aqueles informes, tinha a minha atenção presa à pessoa de meu hóspede inesperado.
Em dado momento, num gesto vagaroso, arrancou do turbante, estirou indolente as pernas, acomodou o busto forte sobre larga almofada e decaiu em silêncio.
Pude, então, observá–lo melhor.
Era um homem relativamente moço, mas já cruelmente maltratado pelos revezes da vida. Ligeiramente calvo, tinha olhos claros e fisionomia inteligente e expressiva. Enegrecia–lhe a mão esquerda, até a altura do punho, estranha tatuagem, cuja forma, ao primeiro olhar, não pude distinguir.
Deixou–se ficar algum tempo em silêncio, os olhos semicerrados,. em completo alheamento, absorto num cismar sem fim.
Decorrido largo espaço ergueu–se, de súbito, como se despertasse de um sonho, e interpelou–me com insofrida vivacidade.
– Não ouves, meu amigo? E a voz do "muezim"! Vamos à prece!
Pus–me à escuta. O hóspede não despertara enganado. Era realmente chegada a hora do "Mogreb." Que imperdoável distração a minha! O apelo melancólico do "almohaden" rolava pelo ar e se perdia ao longe entre as tamareiras sem dono que orlam o deserto.
Fizemos em dois instantes as abluções do ritual. Lavamos ligeiramente as mãos, os pés, o rosto, as orelhas e o pescoço.
– Façamos a prece lá fora – sugeri ao meu hóspede desconhecido.–
– Não, não – recusou com uma veemência que me surpreendeu. – Oremos aqui mesmo, nesta sala! Tu, que és o dono da casa, orienta–nos! De que lado fica a Cidade Santa?
Respondi estendendo o braço em direção à segunda janela, à esquerda:
– É exatamente neste rumo!
Julguei que ficasse para ali – tornou, com seriedade, o egípcio na direção daquele narguilé.
(Até na hora da prece esse homem está com o pensamento no meu narguilé – pensei. E uma onda de desconfiança negrejou–me o coração).
O cairota (eu insistia, até aquele momento, em supô–lo cairota) apanhou uma lança e colocou–a recostada à parede, com a ponta voltada para baixo, junto à janela que eu indicara.
– Vamos à prece! – disse, dando por findos os preparativos.
Até que se ergueu. Estava finda a prece.
O viajante aproximou–se de mim, olhou–me muito fixo, abraçou–me com vivo transporte de alegria e, a seguir, pôs–se a pular pela sala sacudindo os braços e gritando:
– A "barata"! A "barata"! (bênção especial)
Ao vê–lo naquela atitude tomei–o por um desassisado, ou melhor, por um louco!
Segurei–o com energia pelo ombro:
– Que e isso? Que aconteceu contigo? Respondeu–me com estranha agitação no rosto:
– Pois não sabes? A "barata"! Tens agora a "barata"!
– Vamos! Explica–te. Onde está a "barata"?
Afastou–se alguns passos de mim, cruzou com solenidade os braços, e interpelou–me com grave entono:
– É a “baraka”, e não a “barata”. Quero que me respondas: sou ou não, em tua presença, um desconhecido?
– Sim – confirmei – para mim não passas, realmente, de um estranho. Não sei o teu nome; desconheço o teu passado; ignoro os teus planos de vida, as tuas inclinações e os teus predicados.
– Pois bem – prosseguiu tranqüilo o cairota, retomando o fio de sua explicação – sempre que um homem, estando sozinho em sua casa, recebe um hóspede desconhecido e faz em companhia desse estranho, sob seu teto, a prece do "mogreb", adquire uma proteção especial de Deus. Essa proteção constitui a "baraka" mais valiosa que um crente poderia desejar. E é esse precisamente o teu caso. A "baraka" atuará sobre o teu destino e fará com que a tua vida seja inteiramente transformada. Isso faz com que possas me proteger!
Ao ouvir aquela explicação que a surpreendente solicitação rematava, sorri incrédulo. Não sou muito inclinado a aceitar essas superstições pueris; seria, porém, indelicado contrariar o meu hóspede. Fingi, pois, que admitia como certas todas as suas previsões e disse–lhe com ar agradecido:
– Está bem, meu amigo. Asseguro–te que terás a minha proteção. Imponho, apenas, uma condição. Quero que me contes a tua vida.
O viajante não se fez de rogado. Sentou–se diante de mim, cruzou as pernas e depois de rápido instante de meditativo silêncio, assim começou:
(“Mil Histórias Sem Fim”)
continua ("Zualil e sua vida aventurosa")