Horror

 

Ivan Ângelo

 

O país ficou chocado. A cena da criancinha recém-nascida encontrada boiando na Lagoa da Pampulha dentro de um saco plástico amarrado pelas alças comoveu as pedras. As imagens gravadas tinham som, falas, choro débil, frases de espanto, urgências. Detalhe macabro: era um saco preto.

Dois dias depois, outro bebê nascido havia horas era deixado como um embrulho de restos na porta de uma casa, e logo outro era encontrado num riacho de despejos, morto.

Essas duas últimas mães devem ter visto na televisão a cena que comoveu as pedras. Pelo menos terão ouvido falar, terão escutado comentários de pessoas horrorizadas. E mesmo assim deram o destino que deram a seus filhos? Não se comoveram, como as pedras?

Não é acontecimento raro. Há não muito tempo, um recém-nascido foi encontrado no lixo, num saco também preto, quase esmagado pelas pás do caminhão coletor, salvo por um lixeiro. Outro, achado numa caçamba de material de demolição.

Não é, também, um horror de agora. Nos anos de 1970, um caso comoveu São Paulo: uma mulher enterrou seu bebê vivo numa cova rasa. De madrugada, alguém ouviu o choro abafado da criança, chamou os bombeiros – cães latiam – e a criança foi salva. Havia respirado terra, mas sobreviveu. No hospital, deram-lhe o nome de Geonato – nascido da terra. Com a notícia repetindo-se no rádio, centenas de paulistanos apresentaram-se para adotá-lo. O Jornal da Tarde saiu com o título: "O querido bebê que a mãe não quis".

Que mães são essas? Que mães tiveram, ou têm? Que homens são os seus? Com os recursos atuais, toda criança deveria ser fruto de vontade, expectativas e cuidados, não um acaso desagradável.

Há muita crueldade nesses casos, mas não é só isso nem é tão simples. Há algo de irracional, incompreensível na ação dessas mulheres.

Se não queriam filho, por que o deixaram formar-se e nascer? Se queriam livrar-se de um bebê indesejado que estava para nascer, por que não procuraram pessoas ou instituições que o encaminhassem para adoção, que o fizessem chegar ao mundo direitinho, sem esse sofrimento, esse risco, esse trauma? Por que escolheram esse caminho e não o do respeito e do carinho? Nem precisava de amor, se não estavam dispostas a dá-lo, bastaria o respeito. Seria tão mais seguro e mais confortável para a grávida – evitemos a palavra mãe – e para a criança do que a cruel decisão que tomaram. Não haveria polícia, cadeia, crime. Então, por quê?

Elas queriam vingança. Vingar-se no corpo da criança, espetar nela os alfinetes da sua ira.

Ira pela irresponsabilidade com o próprio útero; raiva pelo desamor dos homens que as deixaram com sua semente agora odiada; ódio pela irresponsabilidade de terem sido infiéis e de o bebê tornar-se evidência; rancor pela impotência, não poder parar aquela coisa dentro delas, mês após mês; fúria infantil por terem sido contrariadas pela natureza; sanha de punir os homens que não assumiram a paternidade; birra de não querer perder uma fútil liberdade; loucura pelo temor de perder o homem que não quer filho. Por seus motivos e por falta de caráter, elas quiseram mesmo agredir a criança, maltratá-la.

"Essa droga de criança", disse a mulher que jogou a filha na Lagoa da Pampulha. Isso resume todas.  

 

http://veja.abril.com.br/vejasp/150206/cronica.html

 

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