
Walcyr Carrasco
As regras de etiqueta mudam mais rapidamente que o tamanho das saias. Minha sólida educação de classe média tornou-se fora de moda. Como enfrentar um fumante? Quando eu era criança, a visita podia ser uma chaminé. Minha mãe abria as janelas disfarçadamente. Seria incapaz de falar um ah! Outro dia fui a uma reuniãozinha. Um rapaz tirou o maço. Quando ia acender o cigarro, a dona da casa sorriu:
– Você pode ir fumar lá fora, por favor?
Ele foi fumar no frio. Voltou tranqüilamente, como se a proibição fosse normal. Não consigo agir assim. Um dos meus amigos, nos restaurantes, mal termina de comer, acende o seu. Fuma diretamente sobre meu prato. Acabo comendo bife com tempero de nicotina! Penso: se ele é capaz de soltar fumaça no meu cardápio, ficará ofendidíssimo com um toque.
Em outra área já obtive meus avanços. Aprendi a expulsar as visitas tarde da noite. Tenho amigos que adoro. Capazes, entretanto, de passar a madrugada conversando. No passado, eu bocejava. Parava de servir café ou bebida. Ninguém decifrava meus sinais. Pelo contrário. Em certo momento, alguém dizia:
– Posso pegar uma Coca lá na geladeira?
– Claro – eu respondia aterrorizado.
– Também quero – pedia outro.
Eu ficava fiscalizando os goles. "Quando terminarem, vão embora", imaginava. Coisa nenhuma. Dali a pouco:
– Posso fazer um café? Tem alguma coisa para comer?
A noite se estendia. Agora, digo simplesmente:
– Pessoal, estou morrendo de sono. O papo está ótimo, mas a gente continua outro dia!
Enquanto ainda estão surpresos com minha cara-de-pau, atiro os casacos em cima de cada um. Abro a porta com um sorriso, avisando:
– Vou aproveitar para soltar os cachorros.
Muito mais difícil é me livrar de alguns telefonemas. Certa amiga tem esse hábito. Fala, fala. Tento desligar:
– A conversa está muito legal, mas eu tenho de...
– Ah, sim! Deixa eu só dizer uma outra coisa...
Lá vai mais meia hora. Já aconteceu de ficar com a mão adormecida de tanto segurar o telefone! Agora tenho um truque infalível. Digo rapidamente:
– Espere um pouco, a outra linha está tocando.
Demoro um instante e volto.
– É um telefonema urgente do meu trabalho. Ligo para você depois.
Bem, digamos que "depois" é um termo abrangente. Dali a um minuto ou vários meses!
Boas maneiras deveriam ser o resultado do comportamento de duas pessoas. Nem sempre é assim. Uma tenta agir da melhor maneira. A outra se aproveita da gentileza alheia. O bicho pega na questão das confidências. Faz pouco tempo, uma amiga ligou.
– Minha vida está um caos!
Por aí foi. Não perguntou de mim. Se tinha tempo ou disposição para ouvir as lamúrias. Lamentavelmente, eu estava com uma vontade terrível de fazer xixi. Fiquei me contorcendo enquanto ela me dava detalhes da briga com o namorado, a tensão com o filho que não aceita o novo amor, os problemas financeiros. Aconselhei, já desesperado:
– Você tem de superar!
Mais lamentações. Eu tentava uma brecha, pedir um minuto. Impossível. De repente, rugi:
– Olha, quer saber? Você confunde amigo com lata de lixo. Por que acha que tem o direito de me ligar todas as semanas para me atirar seus problemas?
Silêncio sepulcral. Eu podia ouvir sua respiração ansiosa. Depois, num fio de voz:
– Desculpe.
– Quando tiver uma coisa boa para me contar, me ligue – concluí.
Desliguei. Aliviado. Fosse o xixi ou uma ficha que caiu, descobrira uma nova regra do bem viver. Amigo pode tudo. Desde que também saiba compartilhar a felicidade.
(http://www.vejasp.com.br/index.shtml)