
A proposta indigna. O tecelão que advoga causas perdidas
Das Mil Histórias Sem Fim... é esta a vigésima segunda. Lida esta, restam apenas novecentas e setenta e oito...
Hoje, antes da prece, achava-me como de costume junto à porta da mesquita de Ullah, valendo-me da caridade dos bons muçulmanos, quando de mim se acercou um Xeque ricamente trajado, que eu soube depois ser o poderoso Kabib Karmala, terceiro-vizir do nosso rei.
Esse nobre maometano, depois de presentear-me delicadamente com uma bolsa cheia de ouro, disse-me, em tom confidencial:
- O nosso querido soberano (que Allah sempre o proteja!) tem ouvido as mais elogiosas referências à inquebrantável honestidade de um escriba chamado Ali Durrani. É intenção do rei nomear esse homem para o cargo de tesoureiro da corte. Tal escolha, porém, não me agrada nem pode convir aos outros vizires. Sei igualmente que o escriba tem o costume de vir todos os dias a esta mesquita e nunca deixa de socorrer com um dinar de cobre a todos os mendigos que encontra. Conto, pois, com o teu auxílio para desmentir a fama de probidade de que goza Ali Durrani.
- Que devo fazer para auxiliá-lo, ó Xeque generoso? – perguntei.
- É simples – continuou o prestigioso vizir. – Logo que o escriba apareça, iras ao encontro dele e procurarás convencê-lo de que ontem, sem querer, ele te deu por engano um damasin de ouro, e que, portanto, tem direito ao troco de 99 dinares. Se conseguires fazer com que o escriba – quebrando os seus princípios de honestidade - guarde indevidamente o troco, receberás de mim, como recompensa, duas mil peças de ouro!
Só Allah, o Incomparável, poderia avaliar a intensa alegria que de mim se apoderou ao ouvir tal proposta. Eu estava convencido de que o escriba, por mais honesto que fosse, não deixaria de aceitar um simples troco de 99 dinares.
Assim, já me acreditava possuidor do rico pecúlio que o vizir me oferecera, quando esbarrei na recusa inabalável do escriba. Fiquei por isso exaltado e, perdendo a calma e a serenidade tão necessárias, não pude conter um acesso de furor e tentei maltratar o homem bondoso e honesto que tantas vezes se apiedara ao trazer-nos o seu óbolo generoso.
Ao ouvir a narrativa do mendigo, disse-lhe o juiz:
- Não encontro como justificar o teu infame proceder. É duplo o teu crime: procuraste iludir um benfeitor e tentaste induzi-lo à prática de uma ação indigna. Vou, pois, castigar-te como mereces. Quero, porém, ouvir antes as testemunhas que contigo foram trazidas até aqui.
Um velho tecelão, que fora o primeiro a socorrer o escriba, aproximando-se do íntegro juiz, disse-lhe respeitoso:
- Peço-vos humildemente perdão, ó emir! Penso porém que não deveis lavrar sentença contra esse infeliz mendigo! Ele tem toda a razão! Só o escriba é que é culpado! Recusando o troco ele tinha em vista uma grande recompensa!
- Por quê? – indagou surpreso o juiz.
- Porventura não conheceis – continuou o tecelão – o caso ocorrido com um jovem de Bagdá que recusou aceitar uma caravana carregada de ouro e pedrarias?
- Que caso foi esse? – perguntou o juiz.
- Vou contá-lo – respondeu o tecelão.
E narrou o seguinte:
(“Mil Histórias Sem Fim”)
continua (A caravana de jóias)