
Depois de subirmos a encosta, palmilhando um caminho suavemente ensombrado por frondosas acácias, chegamos por fim ao alto da colina, onde fora erguido o artístico mausoléu.
- É este - disse o velho guia, apontando para o vetusto monumento - o túmulo do glorioso e sempre lembrado rei Tibar, senhor de Laristã!
Parei deslumbrado. Jamais encontrara, entre mausoléus famosos do Islã, obra mais grandiosa e rica. Sobre uma grande pedra negra em forma de um cubo gigantesco erguia-se uma coluna de mármore branco cheia de inscrições feitas de brilhantes, rubis, safiras e mil outras pedras preciosas. Em cada um dos quatro cantos do pedestal escuro havia uma lança de prata lavrada com a ponta voltada para o céu. Essas lanças ligavam-se, umas às outras, por pesadíssimas correntes de ouro maciço!
- Admirável! - exclamei ao atentar na deslumbrante beleza do monumento. - Na verdade, eis uma obra de arte que deve ter concretizado o talento de uma centena de artistas e todo o ouro de um Ciro! Não há no mundo rei ou califa cujas cinzas repousem sob túmulo mais rico e imponente!
- Achavam-se - conforme observou - nas proximidades do monumento, muitos homens em atitude respeitosa como se estivessem orando. À volta do túmulo grandes braçadas de flores que mãos piedosas ali depuseram impregnavam o ambiente com um perfume intenso e embriagante.
Ismalin Farad, o velho guia que me acompanhava, chamou-me a atenção para uma bela legenda com letras de rubis, inscrita no meio da coluna:
"Aqui repousa o glorioso rei Tibar. A sua alma descansa no seio de Allah, a sua memória vive eterna no coração dos homens!"
De quando em vez um dos árabes, rompendo o silêncio que nos rodeava, erguia os braços para o céu e exclamava solene:
- Allah tenha em sua paz o glorioso rei Tibar! Glória! Glória ao rei Tibar!
Não podendo reprimir a grande curiosidade - aliás bem justa - que me dominava, perguntei ao bondoso e erudito Ismalin quem tinha sido afinal, na História da Pérsia, esse tão lembrado rei!
- Foi o monarca mais glorioso de quantos subiram ao trono do Laristã!
- Ah! - exclamei. - Foi, então, um grande guerreiro! Venceu vários povos, conquistou muitos países!
- De modo nenhum - retorquiu o meu informante. - O rei Tibar nunca tomou parte em combate! Jamais comandou exércitos! Não era homem que erguesse a lança para ferir quem quer que fosse!
- Foi, por certo, um grande pacificador de povos. Construiu cidades, ergueu escolas, abriu estradas!...
- Nada disso! - replicou, com segurança e orgulho, o bom Ismalin. - O rei Tibar não deixou no país obra ou monumento a que pudesse ligar o seu nome!
- Basta! - atalhei com energia - já descobri: o rei Tibar libertou os escravos da Pérsia!
- Também não!
- Desenvolveu as indústrias! Fundou asilos!
- Também não!
- Distribuiu justiça. Perseguiu os maus!
- Também não!
- Governou tranqüilamente, em paz, sem revoltas, sem conspirações! Aboliu a pena de morte!
- Também não!
- Por Allah! - bradei impaciente. – Juro que não posso, afinal, descobrir o motivo por que a memória do rei Tibar é tão venerada por seus súditos! Que fez, afinal, esse monarca para merecer o epíteto de Glorioso e um título jamais concebido pela gratidão humana?
Sorriu o bondoso guia ao perceber a surpresa crescente que me invadira o espírito à conta de suas negativas lacônicas transformadas em estribilho. E, dando mostras de possuir aquela calma e paciência que são o apanágio dos velhos servos de Allah, disse-me:
- Senta-te aí nesse banco de pedra! Senta e escuta, ó jovem!, pois vou contar a história do glorioso rei Tibar!
- Reinou outrora em nosso país um monarca chamado Khalef que tinha um filho único, de nome Tibar. Como quer que o rei, certa vez, adoecesse gravemente, os médicos mais famosos da corte declararam-no perdido. Ao ter conhecimento da enfermidade do pai e da grave sentença que contra ele formulara a Ciência, o jovem Tibar reuniu todos os vizires, emires e conselheiros e disse-lhes:
- Dentro de poucos dias o Anjo da Morte, assim está escrito, virá, em sua eterna faina, buscar meu pai o rei Khalef. Serei então, por força da Lei, coroado rei do Laristã. É meu desejo, porém, praticar logo que subir ao trono um ato grandioso que me torne digno da gratidão de todos os povos muçulmanos! Que devo fazer para a minha glória? Podeis dar-me conselhos valiosos e sugerir-me idéias geniais? Seguirei os ditames daquele que me parecer mais justo e acertado!
Disse o grão-vizir:
- Para que o nome de Vossa Alteza fique perpetuado na História, deve Vossa Alteza mandar construir uma torre tão alta que chegue até às nuvens!
Lembrou um dos conselheiros:
- Penso eu que Vossa Alteza será o mais glorioso dos monarcas se conquistar a China.
Um dos emires alvitrou:
- Julgo que Vossa Alteza ficará célebre se abrir um canal que vá do mar até ao deserto!
E, assim, cada um dos cortesãos foi acedendo com sugestões desencontradas ao apelo do futuro monarca. Mas eram tão disparatados os alvitres, que o príncipe Tibar ficou sem saber qual deles perfilhar e, para que pudesse iniciar o seu governo de modo digno, resolveu consultar em segredo um santo marabu que vivia num casebre nos arredores da cidade.
Que lhe disse esse sacerdote?
Ninguém o soube. O certo é que dias depois faleceu o rei Khalef e o príncipe Tibar foi coroado rei do Laristã.
O povo aguardava ansioso o primeiro decreto do novo rei, pois sabiam todos que ele queria iniciar o governo com um ato que o celebrizasse na História. E sabes o que fez o rei Tibar? Três horas depois da coroação, mandou reunir todos os vizires, emires, cádis, conselheiros, nobres, sacerdotes e oficiais e disse-lhes:
- "Muçulmanos! Estou convencido de que não possuo os requisitos necessários para governar o País! Resolvo, portanto, abdicar em favor do xeque Bekkay El-Hareth, que deverá ser proclamado rei do Laristã!".
Essa declaração do rei Tibar foi recebida com a maior alegria pelos nobres e pelo povo. Na verdade, o escolhido era homem de admirável inteireza de caráter, agudíssima inteligência e, sem contestação, a primeira autoridade na arte dos negócios públicos. E do exílio em que vivia veio ele para o trono de Laristã!
- Logo depois da coroação de Bekkay - continuou o velho Ismalin - o jovem Tibar retirou-se para um castelo de sua propriedade onde viveu modestamente como simples lavrador, ignorado e esquecido, até morrer! Durante trinta anos teve o Laristã, na pessoa de Bekkay El-Hareth, um rei sábio, ativo, justo e honesto. Foram trinta anos de paz, progresso, harmonia e bem-estar! Foi o período mais brilhante na nossa história. E a quem devemos tudo isso? Exclusivamente ao rei Tibar, que soube, desprezando a vaidade e abrindo mão de um trono, reconhecer publicamente a sua incapacidade e passar a direção do país ao mais competente e capaz!
Mal terminara o velho guia as suas judiciosas conclusões, levantei-me sinceramente entusiasmado, e exclamei bem alto, fazendo ecoar forte a minha voz:
- Glória! Glória ao rei Tibar!
("Lendas do Deserto")