História de um "contador de histórias"

 

Como um jovem, sentindo-se atrapalhado, põe em prática os ensinamentos contidos num provérbio hindu!

 

Das Mil Histórias Sem Fim... é esta a décima quinta! Lida a décima quinta, restam apenas novecentas e oitenta e cinco...

 

Afi An-Hari é o meu nome. Meu pai, que era um hábil negociante, fazia de quando em vez uma viagem a Sirendib, onde ia em busca de especiarias que revendia com apreciáveis lucros aos seus agentes de Basra.

Quis, porém, o destino que meu pai viesse a morrer em conseqüência de um naufrágio, desaparecendo com todas as riquezas e dinheiro que transportava. Ficou a nossa família em completo desamparo. Forçado pelas necessidades da vida a procurar trabalho, empreguei-me como escriba em casa de um Xeque muito rico chamado Ibraim Hata. Uma noite, conversando casualmente com o meu patrão, disse-lhe que sabia contar várias histórias. - "Se é verdade o que acabas de revelar ajuntou o Xeque - vou dar-te em minha casa o emprego de contador de histórias. Passarás a ganhar o triplo de teu atual ordenado!"        

Aquela decisão do meu generoso amo causou me não pequena alegria. Passei a exercer no palácio de Ibraim Hata um cargo invejável: contador de histórias. Todas as noites, invariavelmente, o Xeque Ibraim reunia em sua casa vários parentes e amigos; e eu, na presença dos ilustres convidados, contava uma lenda ou uma fábula qualquer. Em geral, finda a narrativa, os ouvintes mais entusiasmados felicitavam-me com palavras de estímulo e davam-me ainda peças de ouro. Vivi assim, regaladamente, durante meses, semeando na imaginação dos que me ouviam todos os sonhos e fantasias dos contos árabes.      

Hoje, finalmente, pela manhã, fui avisado de que haviam chegado do Egito vários amigos do Xeque, mercadores ricos e prestigiosos, que seriam incluídos entre os meus numerosos ouvintes para o conto da noite.                 

Em outra ocasião tal acontecimento seria para mim motivo de júbilo; agora, porém, veio causar-me um grande pavor, deixando-me o coração esmagado por uma angústia sem limites. E a razão é simples: tendo desfiado, sem cessar, até a minha última pérola, o colar das minhas histórias e fábulas, nada mais restava do meu tesouro! Como inventar, de momento, um conto interessante e maravilhoso capaz de agradar aos meus nobres e exigentes ouvintes?

Preocupado com a grave responsabilidade que pesava sobre meus ombros, deixei pela manhã o palácio de meu amo e deliberei caminhar ao acaso, pelas ruas da cidade, pois tinha a esperança de encontrar alguém que me pudesse tirar do embaraço em que me achava. Procurei nos cafés os contadores profissionais de maior fama e consultei-os sobre as melhores narrativas que conheciam; apesar da recompensa que eu prometia, não consegui ouvir de nenhum deles história que fosse nova para mim; citavam-me algumas, é verdade, mas todas elas já tinham sido por mim mesmo narradas ao Xeque.

O desânimo - acompanhado de uma inquietação perturbadora - já começava a esmagar as fibras restantes de minha energia, quando me veio, não sei por que, à lembrança um antigo provérbio hindu: "Um jarro quebrado alguma coisa recorda". Quem sabe - pensei, agarrando-me ainda uma vez à esperança - quem sabe se um jarro partido não me fará lembrar uma história há muito esquecida no meu passado pela caravana indolente da memória?

Conta-se (Allah, porém, é mais sábio!) que o famoso poeta Moslini ben el Valid foi, certa vez, vítima de grave atentado. Fizeram cair sobre ele, atirado do alto de um terraço, grande e pesadíssimo jarro. Veio o jarro espatifar-se aos pés do poeta e uma das estilhas, saltando impelida pela violência do choque, foi ferir de leve o rosto de Moslini. O jarro, fabricado por um oleiro de Medina, trazia em letras douradas, sobre fundo azul, a seguinte inscrição: “O que se adquiriu pela força só se pode conservar pela doçura".

O fragmento que feriu Moslini era, precisamente, aquele que continha a palavra "doçura".

Aconselharam ao poeta que levasse o caso ao conhecimento do juiz. A culpada (fora uma jovem ciumenta a autora do atentado) devia ser punida. Recusou-se, porém, Moslini a apresentar queixa ou acusação, dizendo: - "Não posso pedir castigo ou punição para uma pessoa que me feriu com tanta "doçura".

Confirmava-se mais uma vez o provérbio: "Um vaso quebrado alguma coisa recorda".

Movido por essa idéia, adquiri um jarro, depois de meticulosa escolha e pondo em execução o plano delineado, limitei-me a reduzi-lo a estilhas no meio da rua.

- E o processo deu resultado? - perguntei, interessado. - Veio à vossa memória, depois do sacrifício, alguma história interessante, digna de ser contada a um auditório seleto?

A minha ingenuidade fez rir novamente o inteligente Rafi An-Hari.

- Ualá! - exclamou, batendo-me no ombro. - O tal jarro, depois de partido, fez-me recordar um conto, muito original, que poderá divertir os viajantes ilustres e agradar ao bom e generoso Xeque lbraim. E sabes, meu amigo, que história é essa?            

- Interessa-me conhecê-la - respondi. - Deve ser muito original.

Vendo-me dominado pela curiosidade, o inteligente Rafi An-Hari contou-me o seguinte:

 

(“Mil Histórias Sem Fim”)

 

continua ("Os Dois Condenados")

 

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