
Rodrigo Lacerda
Criança, eu tinha mania de hierarquizar minhas preferências. Naquela época, é claro, os dilemas eram outros: jogar botão ou brincar de autorama? Um pacote de batata frita ou um saco de pipoca? Andar de cavalo ou cair na piscina?
Tipos de comida, programas de televisão, casas de amigos e parentes, historinhas, discos, filmes, personagens, e o que mais eu resolvesse gostar, tudo era instantaneamente encaixado dentro de uma categoria e hierarquizado segundo as minhas preferências.
Também fazia parte do negócio cruzar categorias diversas: fazer o gol decisivo no futebolzinho do colégio ou ganhar um brinquedo de presente? Assistir a um filme do John Wayne ou comer bolo de chocolate?
Valia até comparar os desprazeres: anotação na caderneta ou herdar roupa da irmã mais velha?
Tudo páreo duro!...
Ainda pequeno, em relação às minhas coisas preferidas, eu costumava dizer que tinha casado com uma e me separado da outra. Lembro, por exemplo, como se fosse hoje, do dia em que anunciei o fato de ter me separado da televisão para casar com a lasanha. Foi na área de serviço da casa do meu avô, em Petrópolis. As empregadas riram muito. Tão pequeno... todo sério.
Uma tia postiça, sempre que eu anunciava uma dessas resoluções pétreas, me abraçava dizendo: "Menino, você não existe!".
Alguns adultos recusavam minha fixação em hierarquizar as coisas - Tom e Jerry, ou Pernalonga? -, diziam que não dava para comparar, que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, etc. Eu ficava mal por desqualificarem um esforço tão importante para mim. Achava uma tolice alguém não tentar definir qual era o melhor em tal coisa, o que era melhor que o outro, e então seguia hierarquizando tudo. Até gente.
É coisa de ego fraco viver definindo hierarquias e escolhendo ídolos? Ou é sintoma de egocentrismo radical? Talvez ter referências tão nítidas e próximas seja um remédio contra a solidão. Ou mostre uma dificuldade de conviver com as indefinições desse mundo. Ou ainda, quem sabe, reflita a necessidade de ordenar racional e conscientemente as paixões. Tudo pode ser. Ao mesmo tempo, inclusive.
Confesso que no correr dos anos o meu panteão variava, mas não por simples volubilidade. A própria fórmula, "me casei" com uma coisa e "me separei" de outra, dá uma noção da seriedade do compromisso.
Porém, um dia, de tanto rever minhas afirmações categóricas e definitivas, acabei muito desconfiado desse tipo de coisa. Tenho recaídas de vez em quando, mas não duram.
("Tripé – 1999")