O "hakin" ciumento

 

História de um “hakim” que vigiava a esposa dia e noite. Um estranho rapto no meio de uma rua movimentada.

 

Das “Mil histórias sem fim...” é esta a trigésima primeira. Só os desprezíveis temem ser desprezados! Lida esta, restam apenas novecentas e sessenta e nove.

 

Na cidade do Cairo vivia um “hakim” (médico) chamado Hormuz Amana. Muitos egípcios o admiravam; alguns o temiam; mas bem poucos o estimavam.

A razão dessa anomalia pode ser dada em poucas palavras.

O velho Hormuz era reconhecidamente hábil em sua profissão de médico. Era, porém, ganancioso e só atendia aos doentes que podiam pagar. Aos pobres, aos indigentes, era incapaz de dispensar a menor atenção!

E o impiedoso Hormuz, com todo o peso de sua ciência médica, recebeu afinal merecido castigo. Narremos o caso.

O “hakim” Hormuz Amana era casado. Movido, porém, por ciúme torturante, mantinha sua esposa como prisioneira. A jovem Mozna (assim se chamava a esposa do sábio) raramente percorria a cidade, e só o fazia sob a vigilância do seu marido!

Um dia, pela manhã, Mozna pediu ao marido que a levasse até a casa de suas cunhadas (irmãs de Hormuz, é claro!), onde ela queria passar a tarde tagarelando um pouco e ouvindo novidades.

Essa visita às cunhadas era das raras diversões de Mozna e parecia não desagradar ao ciumento “hakim”.

Preparou-se o luxuoso palanquim amarelo. Ao cruzar a praça a jovem Mozna, entreabrindo de leve as peças de veludo que vedavam o palanquim, avistou um velho peixeiro, de turbante escuro, que oferecia num grande cesto magníficos “bayades” do Nilo! O “bayad” é um peixe de carne branca, muito saboroso.

- Gostaria - disse a formosa turca para o esposo - de levar alguns daqueles lindos “bayades” para as minhas cunhadas!

O velho Hormuz, tendo escolhido três belos salmões egípcios, não concordou com o preço exigido, que reputava extorsivo.

O peixeiro pedia 8 dinares e o rico Hormuz só se dispunha a pagar 5!

- É barato! Quase de graça! – obtemperava o peixeiro. - Esses “bayades” valem mais de dez dinares! Foram pescados antes de nascer o sol e têm os olhos da mesma cor!

- Pelo nome de Profeta! - protestava o avarento, - que me importam a mim os olhos do peixe ou a hora exata em que foi pescado! É caríssimo! Julgas, então - ó islamita! - que eu sou ladrão do meu dinheiro?

Assim, entre o vendedor e o ganancioso comprador acendeu-se violenta discussão. Sucederam-se as pragas e os doestos. Não havia meio de se estabelecer acordo razoável!

Afinal, o velho Hormuz, com um gesto de rancor e protesto, desistiu da compra e atirou os “bayades” escolhidos para dentro do cesto. E, dando as costas ao peixeiro, voltou para o palanquim.

Dolorosa surpresa o aguardava! A esposa não estava ali. Desaparecera, como por encanto.

Os quatro condutores, preocupados em observar a contenda entre o amo e o peixeiro, não a tinham visto sair!

Fugira? Fora raptada?

O “hakim” ficou desorientado. Abalava a praça com seus gritos insofridos: Mozna! Querida Mozna! Onde estás, meu amor?

Mas seus chamados, os seus apelos alucinados ecoavam ao longe, perdiam-se no espaço e ficavam sem resposta. Dezenas de transeuntes e curiosos aproximaram-se:

- Que foi? Que sucedeu?

O “hakim” não se conformava com o desaparecimento daquela que era a luz de seus olhos, encanto de sua vida!

Um dos carregadores, interpelado pelo amo, declarou que na ocasião em que o palanquim estivera parado, avistara dois homens, em atitude misteriosa, que observavam a praça, colados a um muro próximo. Um deles era velho, tinha as barbas brancas; o outro, muito jovem, usava um albornoz riscado e turbante com barras verdes.

Foram baldadas as pesquisas e indagações feitas pelo marido. Não havia quem soubesse do paradeiro da jovem Mozna.

Mas o “hakim” não perdia a esperança de reencontrar o seu tesouro. E todas as tardes punha-se a deambular pelas vielas mais pobres de Makzttan - na esperança de colher, por inspiração do acaso, uma indicação que o pusesse na trilha do raptor de sua amada.

Uma tarde, quando pervagava pela praça de Eksbiê, o velho Hormuz viu acercar-se dele uma rapariga velada por um longo “ferédge” (disfarce) avermelhado. As suas maneiras denunciavam mistério.

- Siga-me! - ordenou ela em voz baixa ao médico.

- Que queres de mim? - indagou Hormuz intrigado.

- Alguém deseja ajudá-lo - sussurrou a desconhecida com um movimento quase imperceptível de lábios. - Venha comigo, e conhecerá, hoje mesmo, o paradeiro de sua esposa.

E, sem mais palavras, a turca pôs-se a caminhar a passos ligeiros pela extensa rua que levava ao bairro de Ahmad. Hormuz acompanhou-a a pequena distância.

Começava a ventar forte. Para os lados da velha mesquita as rajadas varriam o chão e erguiam nuvens de pó.

Chegaram, afinal, diante de uma grande casa de pedra, que ostentava na fachada principal dois imensos “mucharabiehs” com grades escuras. A rapariga bateu de leve à porta e acenou para o hakim.

- Vamos entrar. É aqui.

Entraram. Uma escada estreita, toda forrada de esteiras chinesas, conduzia para o piso superior do edifício.

A rapariga que servira de guia desapareceu como por encanto. O médico acercou-se de urna janela, entreabriu-a de leve e olhou para fora.

A tarde tornava-se ameaçadora e sombria. Na parte alta do céu amontoavam-se nuvens cor de chumbo. Na linha do horizonte enovelavam-se outras agrisalhadas. O vento, cada vez mais forte, fazia rugir ao longe as tamareiras.

Mais inquieto do que o céu, estava o espírito do velho “hakim”.

Quem seria o dono daquele palácio?

Como poderia ele obter, em tal lugar, esclarecimentos sobre o rapto de sua esposa?

Essas e muitas outras interrogações coriscavam no pensamento de Hormuz.

Abriu-se, afinal, uma pequena porta lateral (porta secreta, de cuja existência nenhum visitante seria capaz de suspeitar) e o “hakim” viu surgir uma mulher ricamente trajada e de rosto descoberto. Era uma turca de impressionante beleza.

- Agradeço a tua vinda, meu caro “ulemá” - disse ela. - Senta-te neste divã. Hormuz sentou-se. A sombra da dúvida obscurecia-lhe o espírito agitado.

- Quero hoje resgatar uma dívida de gratidão – disse a jovem.

- Gratidão?

- Sim - confirmou a encantadora turca. - Uma vez, no caravançará de Kalem, perto de Damasco, socorreste a um peregrino, ainda muito moço, que um druso ciumento tentara envenenar. Lembras-te desse episódio? Se não fossem os teus preciosos antídotos e os teus cuidados, o peregrino teria perecido. Recordas-te agora? Pois esse jovem a quem salvaste a vida é meu irmão. Escuta, portanto, o que te vou dizer: fui informada de que tua esposa Mozna correspondia-se com um jovem mercador de Alexandria, e que nas vésperas do rapto recebeu uma mensagem de seu namorado!

- Isso não é possível! - protestou o “hakim” com veemência. - Minha esposa não sabia escrever; não recebia visitas; estava sempre sob a vigilância de guardas de minha inteira confiança.

- Vejamos, então - ponderou a outra com um risinho astuto. - Tua esposa Mozna não tinha a mania de comprar perfumes, espelhos, chinelas coloridas e almofadas? Pois em cada um desses objetos ia sempre um recado, um aviso ou um conselho do mercador alexandrino. Que adquiriu ela no dia que precedeu o rapto?

- Comprou duas almofadas damascenas de veludo!

- Fica pois sabendo, meu caro “ulemá”, que nessas soberbas almofadas, que pareciam tão inocentes e inexpressivas, iam sob a forma de bordados todos os planos do rapto: o lugar onde se achava o peixeiro (que foi um dos cúmplices), a maneira de deixar o palanquim, a pessoa que iria buscá-la e o lugar onde ficaria oculta!

- E como soube a senhora disso? - indagou de novo o “hakim” com o coração avinagrado.

- Para responder às indagações que acabas de formular retorquiu a jovem com voz condoída - vejo-me obrigada a narrar-te a história de minha vida. Verás como fui, sem querer, envolvida no estranho desaparecimento de tua esposa.

Com voz tranqüila a islamita narrou o seguinte: 

 

(“Mil Histórias Sem Fim”)

 

continua ("A isca")

 

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