A grande surpresa da Neuza

 

Marília, século passado. O ano era, mais ou menos, 1966. Havíamos construído uma casa nova na Rua Santa Helena em Marília.

Trabalhávamos muito: eu, nessa época, como fiscal da Carteira Agrícola do Banco do Brasil; a Jô, minha esposa, como promotora de vendas de Avon. Já devo ter registrado em alguma página: as promotoras de Avon tinham (ou ainda têm) refeições pagas, quilometragem paga, diárias de hotel pagas e carro trocado a cada dois anos. Mas isso, agora, não vem ao caso.

Tínhamos chegado de mais um dia de trabalho, cansados e querendo comer alguma coisa e relaxar. Eram, imagino, umas nove ou dez horas da noite. A porta da rua estava trancada e as luzes visíveis da rua, apagadas. Como se pode imaginar.

Os meninos, que até então estavam por conta da governanta, agora esperavam por nós, que decidimos tomar banho. E depois daríamos atenção a eles. Não necessariamente comer, pois, pela hora, a governanta já teria dado algo a eles.

Do banheiro não se ouvia a campainha da sala. De maneira que quando foi tocada, nada ouvimos. Mas o nosso filho mais velho, com cerca de seis ou sete anos, apressou-se a abrir a porta.

Quem estava à porta era a Neuza, promotora de vendas como a Jô, só que na região de Garça.

Abro um parêntese para contar um fato trágico acontecido com a Neuza algum tempo depois. Era ainda jovem - uns vinte e cinco ou vinte e seis anos - e, pelo cargo que ocupava, em que tinha que entrevistar dezenas de revendedoras todos os dias e ainda fazer reuniões de negócio, era, por assim dizer, quase obrigação estar bonita e bem vestida.

Por causa disso e para manter a linha, resolveu submeter-se a uma cirurgia para correção de problemas de varizes. Só que não foi feliz e, em razão de choque anafilático, veio a falecer na mesa cirúrgica.

Mas, voltando ao fato principal, nosso filho permitiu que ela entrasse e, assim, ela ficou aguardando, juntamente com o nosso filho, ao lado da mesa da sala. Pegaram uma revista e folheavam vendo as fotos e reportagens.

Mal sabíamos o que iria acontecer.

Terminado o banho, totalmente nu passei pelo corredor e ganhei a sala. Oh! Que surpresa. A Neuza estava lá e eu diante dela em trajes de Adão.

Quando a vi, corri em direção à mesa, procurando esconder-me abaixo do tampo. Fiquei naquela posição incômoda mas suportável.

Em seguida, envergonhado, chamei a Jô. Trouxesse uma toalha ou algo parecido.

E, não mais que de repente, entra ela, a Jô, na sala, igualmente pelada...

Foi um grande vexame. Mas como nada mais podia ser feito, a noite terminou em pedidos de desculpas...

Só quero ressaltar que de nada eu tive culpa...

Aliás, ninguém teve culpa – talvez a ansiedade da Neuza para expor algum assunto...

 

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