O grande ladrão

 

José de Souza Martins

 

Numa casa ao lado da Livraria da Vila, na Rua Fradique Coutinho, 915, hoje à livraria incorporada, uma placa informa: "Nesta casa, em 14 de junho de 1970, foi preso pela última vez o grande ladrão Amleto Gino Meneghetti".

Ele estava com 92 anos de idade. A placa registra como fato histórico uma ocorrência policial e qualifica Menegheti como "grande", que, em outros e recuados tempos, seria classificado apenas como ladrão. Mas o ancião há muito já entrara no imaginário da população paulistana como herói, populaçãoessa que torcia por ele e não pela polícia.

Ele nascera em 1878, em Pisa, na Itália, e faleceria em São Paulo, em 1976, seis anos depois dessa última prisão com quase 100 anos de idade. Era filho de um operário. Seus primeiros delitos foram praticados na adolescência, por causa dos quais fugiu para a França, de onde, anos depois, foi deportado para cá. Era mais comum do que se pensa a suposição de que mandar alguém para cá constituía castigp duro.

Chegara aqui com 35 anos de idade. Desembarcou em Santos em 1913, vindo morar com uma tia em São Paulo. Ao chegar, já era conhecido da policia daqui, informada previamente pela polícia italiana de seus delitos por lá. Menos de um ano depois de chegar foi preso por roubo e condenado a oito anos de prisão. Daí em diante sua vida seria uma sucessão de prisões, fugas, escapadas espetaculares por muros altos e telhados, mudança de cidades, manipulação de recursos teatrais para mudar de cara e de aparência, de modo a não ser reconhecido. Tinha um fôlego impressionante e escapava da policia com facilidade. Era admirado nas conversas de calçada dos bairros operários.

Ficou famoso e popular não só por isso, mas também porque só roubava os ricos. Sua fama deveu-se, ainda, às notícias sobre maus-tratos recebidos na cadeia, freqüentemente castigado e recolhido à solitária. Tinha medo de ser envenenado na prisão, o que o levava, na solitária, a lavar a comida na água da privada, antes de comê-la.

O povo reconhecia nele um dos seus, e via em sua história de vítima da policia sua própria história. Ficara profundamente gravada na memória social a repressão violenta à greve geral de 1917, quatro anos depois da chegada de Meneghetti. Naqueles tempos, o tratamento repressivo às chamadas classes perigosas não fazia propriamente distinção entre delinqüentes e proletários. Do mesmo modo que um ladrão como Meneghetti não só agia em nome do que era, no fundo, a luta de classes, como invocava em sua vida símbolos dessa luta.

Raptara aqui em São Paulo Concetta Tovani e com ela casara. Dos cinco filhos que tiveram, sobreviveram dois: Espártaco e Lenine, dois nomes altamente simbólicos da luta de classes, nomes que comunistas gostavam de dar a seus filhos.

Eram os tempos da consciência social difusa.

 

(“O Estado”, 15/03/2010)

 

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