
Este fato aconteceu há muitos anos. Nossos filhos já eram moços mas ainda solteiros e moravam conosco.
O filho do meio era estudante e, nas férias, adorava sair pelo Brasil afora (ou adentro...) por lugares que geralmente não tinham nenhuma infra-estrutura, como estradas, pousadas, linhas regulares de ônibus, nada...
Essas viagens eram, no mais das vezes, em direção ao oeste bravio do nosso Brasil: Amazonas, Goiás, Pará, para não falar das fronteiras com a Venezuela e Bolívia.
E viajava praticamente sem dinheiro, em carrocerias de caminhões, barcos e até pelo famoso "Correio Aéreo Nacional", sempre de carona.
Onde parava, dormia e comia. Pelo seu bom gênio as pessoas o acolhiam com grande alegria.
Era o prazer pelo desconforto e pelo desconhecido.
E as notícias que tínhamos dele eram poucas: da nossa parte, por não sabermos onde estava, num tempo em que nem havia celular. Da parte dele, pela carência de meios e especialmente de dinheiro.
Certa manhã de domingo o nosso telefone toca. Era ele – ligação a cobrar.
- Oi pá! Tudo bem? E a mã, como está? (as abreviações eram - e ainda são - coisa dele e do mais velho).
- Oi, filho, tudo bem. E com você? Por onde tem andado?
E já desconfiado de que havia algo no ar, perguntei:
- Algum problema?
- Não, pai. Mas preciso contar algo lamentável. Perdi o olho esquerdo.
Ah!, eu me apavorei. Perder uma vista, no interior dos interiores, sem recursos e sem possibilidade de socorro... meu Deus!
- Mas, meu filho, como foi isso?
- Sabe, eu estava na carroceria de um caminhão, no meio da selva. Ele ia em grande velocidade – cerca de 50 quilômetros por hora, que era muito para o local, e sacolejava tanto que era quase impossível parar no lugar. De repente, ao passar sob uma galharia imensa, um dos galhos bateu no meu olho esquerdo.
- Filho – disse eu apavorado (e a mãe, não menos apavorada, ouvindo a conversa ao lado do telefone). Venha embora logo, vamos procurar um médico.
- Calma, pai – diz ele. – Não precisa se precipitar. Na realidade foi a lente de contato do olho esquerdo que foi atingida e se perdeu. Nada ocorreu com o meu olho.
- Ah! - disse eu. - Ainda bem. Mas você tinha falado que o problema era com o olho...
E dei uma relaxada.
- Se foi só a lente - disse-lhe, - não se preocupe, filho. Quanto você voltar haveremos de mandar fazer outra.
Eu mal sabia, na hora, que o objetivo dele estava alcançado: impressionar os pais e, depois, dar o bote final: uma lente nova, pois a antiga havia mesmo se perdido!
Mas pai é pai. Na sua volta fomos ao oftalmologista para uma nova lente...