O fumo

 

O kobriner, numa visita inesperada, encontrou o riziner sentado no meio do quarto, numa sexta-feira, antes do ocaso, de cachimbo na boca, fumando tão furiosamente que o ambiente estava irrespirável e enevoado de fumaça.

Percebendo logo o desagrado e a desaprovação do amigo, tão severo e rigorista, o fumante narrou-lhe a história seguinte:

- Certo homem perdeu-se na floresta e foi dar, casualmente, à choupana de um salteador. Na mesa, perto da porta, estava a pistola carregada. O homem encheu-se de coragem, deitou a mão à arma e refletiu de si para consigo: "Se eu matar o bandido, estarei livre dele; se errar o alvo, conseguirei esgueirar-me na fumaça".

Depois de se deter um momento a olhar para o cachimbo, o Riziner concluiu espaçando as palavras em tom recitativo e meio malicioso:

- Assim, também, eu purifico o cérebro para o sábado, pensando em coisas santas e fumando com intensidade o meu velho cachimbo. Se os meus pensamentos me atraiçoarem, a fumaça do fumo, estonteando-me o cérebro, permitirá que eu possa fugir das idéias ímpias e das inclinações pecaminosas.

 

("Lendas do Povo de Deus")

 

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