O fruto permitido

 

Vera Lúcia de Angelis

 

Cheiro de frutas se misturando na madrugada. Portas fechadas. O pêssego e a manga disputam maior evidência. Me atacam libidinosamente. O estômago ronca de vontade. Na escuridão, imagino todas elas se abraçando nas fruteiras. Uma de cada lado do caminho largo da cozinha. Ameixas, nectarinas e as cotidianas: banana, laranja e mamão. Eu que as procuro somente em caso de sede, me delicio com a salada de cheiros.

Frutas de festa. Fim de ano. Dezembro. Saio de uma confraternização, entro em outra. A ressaca implora o sumo. Néctar descendo pela garganta e pelo queixo da boca desajeitada. Necessidade de lamber os dedos e inclinar o corpo para evitar o desastre de manchar a roupa nova. Mas resisto. É hora de dormir e preparar o estômago para o café das onze horas. Depois, almoço, compras, e mais três festas neste sábado já pela metade. O estômago ronca de novo e os olhos marejam. Sono. Balanço num pé de pêssegos. Estão verdes e altos, mas o cheiro inunda a tarde ensolarada. Para frente e para trás. Vai doer o pescoço se eu deixar a cabeça pendendo para trás, o tempo todo. Gostoso ver o céu no meio da árvore. Os arbustos mudam de forma assumindo o papel de vários rostos que me observam lá de cima. Todos comendo pêssegos.

- Quer um pedaço?

- Não, obrigada.

As cordas do balanço apertam minhas nádegas. Tornou-se pequeno para uma mulher beirando os quarenta anos. Não consigo descer. Estou presa.

Dedos finos erguem meu queixo para a posição anterior.

Deus. Meu pai. Agora minha mãe, no fogão, suando muito.

Depois, meus amantes num desfile cronológico. Escurece.

Cheiro de casa pintada recentemente. Frango assado de véspera de Natal. Não gostamos de peru em casa. Mas ainda é cedo. Não chegaram as uvas no mercado.

Desço do balanço, finalmente, para ir até em casa. O terreno está vazio. Restam garrafas de champanhe, vazias. Quero voltar para o cheiro de pêssego, mas alguém segura meu braço, passa a mão no meu pescoço e me beija violentamente. O ar me escapa. Desperto na beira de um rio, sozinha. Minha roupa de festa amassada. Calça pantalona, acetinada, branca, de Reveillon. Já passou? Blusa champanhe, cavada, com botões forrados no mesmo cetim da calça. Sapatos de salto moderado, porém fino. Nada de brincos, a não ser o incômodo de quem acaba de tirá-los. Pressão nos lóbulos róseos. Levanto do chão molhado. Orvalho. Uma mão me ajuda. Olhos nos olhos. Quem é ele? Papai Noel castanho para combinar com meu cabelo negro. Seu rosto tem mil imagens, como o pessegueiro. Reviravoltas e ele assume a revelação de uma só paixão. Atual e consagrada.

- É ele que eu amo.

Eu já sabia mas não me dizia.

Em carne e osso a constatação. Ele ausente. Quem sabe do outro lado do rio? Atravesso, sem barco, nem nado. Por milagre. Uma casa enorme me espera. Luzes de velas, fitas, e bolas de Natal nas janelas. Um anjo me abre a porta. Cabelos negros, longos e um gesto Zen.

- Seja bem-vinda. Toque o sino antes de entrar.

Acendo uma vela a um desejo, guardado no ritual da cera quente. - É ele que eu amo. A ele desejo felicidade.

Abandono a festa com uma flor na mão. Ninguém me espera no jardim de guirlandas e camélias. Alguma coisa roça minhas pernas na caminhada. Uma saia de crepe vermelho, rodada até os tornozelos. Quem me vestiu assim? Rosa no cabelo, sou bela e morena. A mão de um bailarino me leva ao sonho flamenco. Carmem e castanholas. A emoção me congela. Paro e assisto. O cabelo longo, a cabeça olhando os pés na curva da dança. E o anjo, com sotaque espanhol, em seu corpo vigoroso. Toureiro do meu amor, é como um filme. Me derrota, me apunhala com sua espada de ouro. O sangue jorra dentro de mim em rios caudalosos de febre e paixão.

É ele que eu amo.

 

(“O Conto Brasileiro Hoje – vol II”)

 

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