O flagelo

 

O velho árabe, depois de passar vagarosamente a mão áspera pela barba longa e hirsuta, voltou-se para mim e disse numa voz mastigada e grossa:

- Há coisas incríveis, meu amigo! Não nego. Há coisas incríveis! Eu, por exemplo, já vi uma vez mais de trinta homens em pleno deserto orando e implorando ao Onipotente a graça de um flagelo!

Queriam todos que o simum varresse e arrasasse tudo! E quando afinal o flagelo chegou, puseram-se todos aos brados a agradecer a Allah aquela graça espantosa!

Olhei um pouco desconfiado para o xeque.

Estaria ele a tecer dislates de pura fantasia em torno de algumas de suas aventuras pelos desertos da Arábia? Quem teria imaginação bastante para aceitar, como verídico, aquele estranho episódio?

Homens que pedem a Deus um simum e que erguem louvores ao céu quando atingidos pelo flagelo mais temido e perigoso do mundo?

Percebendo em meus olhos a onda de incredulidade que me invadira o espírito, o velho resolveu narrar e esclarecer o caso.

E contou o seguinte:

- Quando voltávamos há dois anos da terceira peregrinação a Meca, nossa caravana foi forçada a procurar refúgio no pequeno oásis de Ozal, que fica no coração do imenso deserto de Roba-el Kali.

Certa manhã o astucioso chamir Farid El-Hotab, que chefia o nosso grupo, mandou chamar a mim e aos outros xeques que o acompanhavam e disse-nos: - "Estou informado, meus amigos, de que Hassã Hammud, o bandido, com mais de duzentos beduínos vem nos seguindo, a pequena distância, orientados pelo rastro que deixamos na areia. Amanhã ou depois seremos alcançados e atacados. Qualquer tentativa de resistência será inútil. A nossa caravana será saqueada e as nossas vidas não serão poupadas!"

E feita breve pausa o chamir acrescentou desolado: - "Seja tudo pela vontade de Allah, o Sapientíssimo! Só um tufão nos poderia salvar! Ao ouvir tais palavras protestei enérgico: -"Insensato que és, ó chamir! Por que proferes o nome do Altíssimo no meio de blasfêmias? Em que sentido nos poderia auxiliar um flagelo capaz de matar os nossos homens e dizimar os nossos camelos?"

Tornou tranqüilo o chefe: "Se ainda hoje cair sobre o deserto o simum, (*) que desde ontem nos ameaça estaremos salvos. A violência do vento fará desaparecer da areia o rastro de nossa caravana. Será fácil iludir os bandidos que nos seguem, e sem que eles percebam tomaremos o rumo dos cerros de Letã".

Reconheci, mais uma vez, que o chamir Farid El-Kotab, com sua longa experiência da vida no deserto, tinha razão. Se ainda naquele dia o simum varresse o deserto, mantendo e destruindo, estaríamos salvos. E à tarde, depois da terceira prece, o ar tornou-se mais quente e mais seco; o horizonte apresentou-se inundado por uma onda de cor vermelha como púrpura, que repintava a abóbada imensa do céu; rajadas violentas de um vento ardente e fétido erguiam, aqui e acolá, fantásticas colunas de areia.

Era, afinal, o simum devastador que se aproximava.

Aos primeiros sinais do vendaval os caravaneiros ergueram os braços e puseram-se a exclamar, tomados de imensa alegria: "Allahur akbar! Allahur akba!" (Deus é grande! Deus é grande!) E era assim que eles agradeciam a Deus a graça daquele flagelo que vinha impetuoso em nosso auxílio!

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(*) O simum - Ocorre freqüentemente o simum durante o período do verão, na época em que o calor é mais intenso. Como os árabes que vivem no deserto estão muito habituados com o ar puro, não suportam o "cheiro" do simum. Quando o simum rompe na sua violência máxima os homens deitam-se no chão, com o rosto voltado para baixo; defendem-se desse modo, da areia e das rajadas ardentes, que são extremamente perigosas.

 

("Lendas do Deserto")

 

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