Finalmente o casamento

 

O rei anuncia o casamento de Nagib - Um desafio ao destino - O vaticínio do dervixe - A sobrinha do vizir Tela Fari - A prece

 

Não foi pequena a surpresa dos nobres muçulmanos, quando viram surgir à porta do rico salão a figura esbelta e simpática do jovem Nagib, o Egípcio. Todo ele resplandecia. Retornava, com seu amigo Nagib Noturno, da casa de banhos, aonde fora, por ordem do rei, preparar-se para a cerimônia. Vestia um elegante uniforme de oficial superior da guarda real. Um vistoso haic branco com barras verdes caía-lhe sobre os ombros: presa à cintura ostentava riquíssima espada damascena. Era bem difícil pudesse alguém reconhecer naquele garboso militar o ex-detento que, poucas horas antes, fora conduzido à presença do califa.

Decorridos alguns instantes, surgiu, no salão, uma figura que mais parecia um sonho encantado dos versos deliciosos do poeta Antar. Era a graciosa Nedjma, filha do Xeque Ahmed Kamil, a noiva. Amparada pelo braço de uma escrava grega, caminhou, lenta e suavemente, por entre os Xeques e vizires. Trajava um vestido azul-claro, debruado com fios de ouro e rendas da Armênia. Preso ao cabelo por barrinhas cravejadas de rubis trazia um véu da mesma cor do vestido. Esse haic mal lhe velava a formosura do rosto.

O peroleiro Abd-el-Salib - o noivo desventurado, ao contrário do que fora de supor, não se retirara do recinto. Ali mesmo ficou, lastimavelmente humilde, para assistir ao casamento da sua ex-noiva com o novo favorito do rei.

Cumpria ao cádi ( que permanecera na sala desde o início das ocorrências) realizar a cerimônia. O velho magistrado, com as mãos trêmulas, abriu solene o Alcorão e preparou-se para ler a Fatihah, repetindo as palavras sagradas para os crentes do Islã. Susteve-se, porém, diante de um ligeiro aceno do monarca.

Fez-se inquietante e profundo silêncio.

Ia falar o poderoso rei Baribê, califa de Bagdá, sombra de Allah na terra. Vizires, Xeques e oficiais conservaram-se de pé, solenes, braços cruzados, em atitude de submissão e respeito.

Num tom grave, fazendo ecoar pausadamente as palavras, disse o emir:

- Dentro de alguns momentos, ó Irmão dos Árabes! vamos ter a indescritível alegria de assistir ao venturoso enlace de Nedjma, filha de Ahmed Kamil, com o seu apaixonado Nagib, o generoso e valente cairota.

Não sei, até hoje, de outro casamento que se assinalasse por episódios tão curiosos e surpreendentes. Já duas vezes, nesta mesma sala, apresentou-se Nedjma como noiva, para ouvir a sentença do cádi. Da primeira vez, o enlace foi impedido por um ato violento e criminoso do vizir Sayeg (que Allah o tenha em sua paz); decorridos mil e um dias, volta Nedjma para desposar El-Hadj-Salib, o peroleiro, e esse segundo enlace (contrário aos anseios da noiva) foi desfeito por mim.

Os fatos vieram provar que, tanto num como no outro caso, o malogro dos esponsais se verificou graças à intervenção do dervixe Telibrã, convidado, nos últimos momentos, a pronunciar vaticínios. E agora, ó muçulmano!, tudo parece aconselhar procedamos, sem mais delongas, à cerimônia. Sinto, porém, uma orgulhosa alegria sempre que posso desafiar o Destino! Resolvo, portanto, que, ainda desta vez, o dervixe funesto leia a sorte da noiva ou anuncie alguma coisa em relação ao noivo! Vejamos se, estando eu, o rei, aqui presente para decidir e ordenar (e o impávido Baribê bateu orgulhoso no peito), vejamos, repito, se ainda agora surge algum imprevisto capaz de impedir a realização deste casamento!

Aquele absurdo e insensato capricho do califa - que assim desafiava o próprio destino - causou entre os presentes uma constrangedora sensação de espanto e inquietação! Que veleidade, a do rei! Não há humano poder capaz de enfrentar o Destino! Aquele destemor arrogante do vaidoso califa assumiu aos olhos dos crentes tal gravidade, que punha em risco a felicidade e a vida de todos os presentes.

E decidido a levar, até o fim, a sua fanfarronesca estultícia, o califa ordenou, com voz possante:

- Que venha o mago Telibrã (Allah, porém, é mais sábio!) ler a sorte dos ditosos noivos! Não temo esses supostos rebates de presságios fatídicos e não creio, tampouco, no poder oculto da magia!

E um sorriso escarninho repuxou os lábios do califa.

O andrajoso faquir, impassível a um canto, encaminhou-se, meio claudicante, até o meio da sala. Os seus cabelos revoltos pareciam empastados de sujidades. As babuchas que lhe cobriam os pés estavam rotas e sórdidas.

- Fala! - bradou o rei com decisão flamejante.

Conservou-se o velho dervixe algum tempo calado e, na postura em que estava, ergueu finalmente o rosto, passou a mão trêmula pela barba hirsuta, olhou para o teto, correu a vista agressiva pelas pessoas presentes e disse com voz cavernosa:

- Longe de mim, ó rei dos Árabes!, qualquer propósito ou a mais leve intenção de causar neste momento a menor contrariedade ou desprazer a quem quer que seja. Uma vez, porém, que sou intimado a vaticinar alguma coisa em relação aos noivos (E elly á-meluh? - Que fazer?), não posso deixar de cumprir com o meu dever.

E, feita ligeira pausa, o velho mágico atirou as mãos para as costas, abanou a cabeça e, como se quisesse coordenar vagas recordações, prosseguiu:

- Apenas uma coisa julgo interessante revelar neste momento: estou certo de que o noivo, Nagib, o Egípcio, se sentiria muito feliz se a sobrinha do vizir Zein Tela Fari (esse nobre que, há pouco, me acusou tão injustamente!) viesse assistir a este casamento!

E com estas palavras que rolaram como seixos recaiu o misterioso dervixe em profunda concentração. Não se ouvia na sala o mais ligeiro rumor. Até a fonte perene, que adornava o pátio, parecia ter interrompido por alguns instantes o seu dormente marulhar. O punhal da dúvida rasgava fundo o pensamento de todos.

Que relação poderia existir entre Nagib, capitão do rei, e a sobrinha do vizir Tela Fari?

Até mesmo a noiva, em cujos olhos brilhavam uma esperança misturada de temor, sentia-se abalada com a surpreendente revelação do dervixe.

O primeiro a quebrar o constrangedor silêncio foi o rei, que disse com voz grave, dirigindo-se ao vizir:

- Meu amigo! Muitas vezes, abrimos a porta para a Verdade e vemos entrar o Mistério! "El hã morr!" Não penetro o sentido obscuro das palavras do dervixe, mas gostaria (acrescentou zombeteiro) que a tua sobrinha nos desse a honra de vir a este palácio!

Respondeu o vizir com certa rudeza e precipitação, apontando, imperioso, para o dervixe:

- Esse velhaco imundo está delirando, ó Comendador dos Crentes!, ou então quer divertir-se às nossas custas! Tenho apenas uma sobrinha, filha de El-Haziri, meu irmão mais velho! Ignoro, porém, o seu paradeiro, e não a vejo há mais de dois anos.

- É bem possível que possamos descobri-la - ponderou paciente o rei. Por Allah! Que coisa! E sem esperar resposta:

- Como se chama essa menina, filha de teu irmão El-Haziri?

O vizir baixou o rosto, hesitou algum tempo e, por fim, respondeu, de golpe:

- Chama-se Myriam e é cristã.

Um sussurro de espanto ondeou pelo salão:

Iallah! Que coisa estranha! A jovem cuja presença, no dizer do dervixe, deveria alegrar o noivo era uma cristã, ou melhor, uma infiel!

Os árabes afirmam que todo mistério tem três faces. Aparecia, naquele caso, a terceira face do mistério: uma cristã devia conhecer o noivo!

- "Quem começa a contar os camelos de uma caravana deve ir até o fim". O rei Baribê, resolvido a pôr em pratos-limpos aquela geringonça, inquiriu, novamente, o vizir:

- Dize-me, ó judicioso amigo! essa tua sobrinha infiel, filha de El-Haziri, é solteira ou casada?

Ia o vizir responder quando a atenção de todos foi despertada pelo canto dolente e cadenciado do muezim, que da almenara da mesquita chamava os fiéis à prece:

- Vinde à prece, o muçulmanos! Allah é Deus e Maomé é o enviado de Allah! Vinde à prece, o muçulmanos!

Deviam todos, naquele momento, interromper seus trabalhos, silenciar suas queixas, esquecer lutas, paixões e intrigas mesquinhas da vida. O pensamento único seria para Allah, o Imutável, juiz supremo, na terra e no céu.

A voz plangente do muezim entristecia a suavidade da tarde.

Vinde à prece, o muçulmano! Lembrai-vos de que tudo é pó, exceto Allah!

Se o monarca, naquela hora, determinasse a realização do casamento, praticaria um pecado gravíssimo contra a fé do Islã.

Disse pois nervoso, com voz sucumbida:

- O casamento de Nedjma ficará para depois da prece!

E, seguido de seus vizires e auxiliares, deixou o salão. Os demais muçulmanos dirigiram-se para o pátio do palácio; as mulheres recolheram-se ao harém.

Era a hora da terceira prece.

Voltados para Meca, a cidade Santa, iam todos erguer suas súplicas a Allah, o Criador, o eterno senhor dos mundos visíveis e invisíveis!

Mais de uma vez o dervixe Telibrã fizera, por sua intervenção inesperada, adiar o casamento de Nedjma!

A arrogância do vaidoso califa foi vencida e esmagada por um poder mais forte do que o de todos os reis do mundo: a palavra de Deus!

Terminada a prece o rei Baribê - no fiel cumprimento de sua palavra - voltou a palácio. Realizou-se, então, com a maior solenidade, o casamento de Nedjma com Nagib, o Egípcio.

E, desta vez, ninguém desejou ouvir o dervixe Telibrã.

O rei Baribê quis recompensá-lo.

O velho mago, porém, fugira do palácio e nunca mais foi encontrado em Bagdá!

Dizem que pereceu no deserto! Que Allah o tenha em seu eterno descanso!

 

(“Aventuras do Rei Baribê)

 

continua ("O Banquete")

 

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