
Amélia R. Lung
Tudo começou com uma série de artigos em conhecida revista científica, da qual Aloysius é ardente leitor. Quando entrei ele levantou os olhos, avançou em direção de uma das revistas e atirou-ma.
- Eric, quero que você leia isso! Depois me diga o que acha.
A revista estava aberta na página que inseria um artigo cujo título era: "Atlântida: Provas de sua Existência", e fora escrito por um Sr. Theophilus Black. Quando terminei de ler e ia fazer um comentário, Aloysius meteu outra revista em minha mão.
- Leia isto antes de dizer seja o que for - continuou ele. - Depois, quero saber sua reação a respeito de ambos os artigos.
O artigo daquela segunda revista chamava-se "A Atlântida vista sem tolas fantasias", e confirmava seu título. Li, tal como Aloysius ordenara, e enquanto alguns minutos antes o Sr. Black me havia predisposto a engolir todo o continente da Atlântida, agora o Sr. Kenneth McScribe, autor do segundo artigo, fazia-me tropeçar no primeiro calhau. Olhei desarvorado para Aloysius, sentindo-me um bocadinho tonto.
- O que acha da teoria da Atlântida, em seu todo?
- Mal posso dizer algo - respondi, tentando organizar minhas embaralhadas reações. - Ambos os lados parecem dispor de bons argumentos.
- Pois foi isso que eu também senti. A lógica do Sr. Black é excelente, mas construída sobre uma situação bastante porosa, e por cima dela o Sr. McScribe colocou habilmente um microscópio. Mas, em seu entusiasmo, o Sr. McScribe usou lentes demasiadamente poderosas.
- É verdade - concordei eu, esperançoso. - E a simples existência daquelas rochas constitui forte indicação...
- Não se apresse tanto! - interrompeu ele. - A existência daquelas rochas não deve indicar mais do que uma ilha agora submersa, e é ir um tanto longe demais querer construir todo um continente repousando nesse fato, tal como fazer uma montanha de um montículo de toupeiras, em escala exagerada.
- Você tem um péssimo costume de saltar de um lado da questão para o outro! - queixei-me.
- Receio que você não possua mentalidade científica, Eric.
Interrompeu-se em meio da frase, e uma expressão extática subiu-lhe ao rosto.
- Com mil diabos! - exclamou, batendo o punho direito na palma da mão esquerda. - Penso que isso pode ser feito, e vou tentar fazê-lo!
- E daí? - perguntei um tanto assustado, sabendo por experiências anteriores que quando Aloysius falava naquele tom tudo podia acontecer.
- Vou despertar a memória racial - replicou ele. - Afinal, nossos chamados instintos nada mais são do que lembranças herdadas da raça, como qualquer psicologista lhe dirá. Se essas memórias adormecidas pudessem ser acordadas, trazidas do fundo do inconsciente para a mente consciente, e...
- Mas como será possível fazer isso? - quis eu saber.
- Através do hipnotismo, naturalmente - respondeu ele. - Eu poderia levar a mente do paciente de volta à camada profunda do instinto a ele transmitido pelos seus antepassados, induzindo-o a revivê-lo.
Uma semana apenas se passara quando ele me mandou pedir que fosse vê-lo de novo. Ao chegar à casa dele vi que já estavam ali três outros convidados: dois cavalheiros de aspecto bastante erudito, e um índio puro-sangue, com penas e tudo.
- Eric - disse ele - quero apresentar-lhe o Sr. Black, o Sr. McScribe e o Chefe Chuva-no-Rosto. Cavalheiros, meu amigo, e às vezes colega, Sr. Dale.
- Escrevi ao Sr. Black e ao Sr. McScribe sobre minha planejada experiência e eles consentiram afavelmente em agir como pacientes.
- Para provar ou não provar a afirmação feita pelo Sr. Black de que os primeiros colonizadores do continente americano eram da Atlântida, seria necessário que um índio autêntico também tomasse parte na experiência - explicou ele. E agora, cavalheiros - continuou ele - se estão prontos, daremos o primeiro passo.
Fez sentar seus pacientes em cadeiras seguidas e conseguiu colocá-los a todos em estado de profunda hipnose. Empreendeu, então, por sugestão, o trabalho de fazer retrogradar as mentes deles através das camadas dos instintos herdados, fazendo-os reviver suas "memórias da raça", conforme as chamava, como se fossem acontecimentos atuais.
Durante as duas horas que se seguiram Chefe Chuva-no-Rosto falou-nos sobre o que acontecera a Henry Hudson depois que ele saíra para sua última viagem, subindo o rio que traz o seu nome, enquanto o Sr. Black e o Sr. McScribe forneciam-nos algumas luzes em relação às vidas de vários personagens destacados das cortes de Luis XIV e de Henrique VIII, respectivamente.
Depois de terem sido acordados, nenhum dos homens de nada lembrava. A pedido de Aloysius todos prometeram voltar no dia seguinte, quando a experiência deveria ter prosseguimento.
Não darei conta pormenorizada dos passos subseqüentes na experiência, anotando apenas os pontos principais. Houve, por exemplo, uma ocasião em que o Chefe Chuva-no-Rosto meteu-se em caminhos de guerra e tentou passar da experiência mental para a ação física, com o auxilio da lâmpada de mesa e de um abridor de cartas.
Depois, houve a ocasião em que o Sr. McScribe pensou que estava com Josué diante das muralhas de Jericó e insistiu em sair marchando em torno do quarteirão até ser preso.
Foi esse incidente, junto com a explicação que provocou, o responsável pela divulgação da experiência toda perante o público. Quando fomos ao posto policial soltar o Sr. McScribe, um repórter do tipo eficiente estava presente. E naquela noite a história, embelezada com alguns pormenores sombrios, apareceu em seu jornal. A conseqüência foi que na manhã seguinte os representantes de todos os jornais da cidade caíram sobre nós.
Nessa altura já tinha conseguido recuar até as primeiras épocas do Egito, e começara, realmente, a conseguir coisas com a memória da raça. Os repórteres ficaram devidamente impressionados, e quando seus relatos foram publicados, o público ledor não lamentou o dinheiro gasto em jornais. O interesse pelo assunto tornou-se tão vivo que o diretor do jornal que divulgara em primeira mão a notícia teve a idéia de sugerir que as experiências continuassem ao vivo.
Assim, tudo foi arranjado para que a etapa final da experiência fosse realizada no maior auditório da cidade.
Finalmente, chegou a noite fatal em que deveria ser atingida a camada atlante no inconsciente dos três pacientes. Aloysius tinha planejado saltar uns tantos milhares de anos para conseguir, se possível, uma descrição da Atlântida em seu auge e da grande inundação. Isso tornaria, explicava ele, a experiência mais compreensível para o auditório.
Penso que de nós dois eu era o mais nervoso. A prática me ensinara que as experiências de Aloysius costumavam terminar com resultados inesperados. Cheguei a sugerir-lhe que fizesse uma espécie de ensaio geral particularmente, mas ele recusou.
- Não, Eric - disse, com firmeza - se eu assim fizesse a experiência desta noite não seria uma verdadeira experiência.
- Mas suponhamos que não exista o continente da Atlântida? - argumentei eu. - E daí?
- Nesse caso - replicou ele sem se alterar - provaremos o ponto de vista do Sr. McScribe.
Vi que nada podia fazer, portanto desisti de insistir.
Exatamente às oito horas Aloysius entrou no palco e explicou a uma platéia repleta e ansiosa o que se propunha fazer. Fora seguido pelo Sr. Black e pelo Sr. McScribe.
Chefe Chuva-no-Rosto, depois de ser apresentado, restringiu-se ao seu "Hum!" sem compromissos.
Dentro de pesado silêncio Aloysius tratou de colocar seus três pacientes em estado de hipnose. Tinha explicado que os melhores resultados podiam ser esperados da parte do Sr. Black, pois que apenas ele, uma vez feita a transferência mental para o remoto passado, parecia capaz de relatar suas despertas memórias de raça para a linguagem do presente. Chefe Chuva-no-Rosto, quando sob influência hipnótica, falava sua linguagem índia, nativa, enquanto nas últimas duas vezes o Sr. McScribe emitira apenas uma espécie de tartamudeio ininteligível, que sugeria um macaco antropóide.
Mal se fez suficientemente profundo o transe hipnótico, Aloysius dirigiu-se aos três, informando-lhes que estavam vivendo agora aproximadamente no ano 20.000 A.C., e ordenou-lhes que descrevessem suas experiências. Seguiu-se um momento de tensa expectativa, durante o qual mudanças sutis pareceram ocorrer nos três homens.
Então, o Chefe Chuva-no-Rosto levantou-se e pronunciou animada oração numa linguagem estranha, depois do que fez uma inclinação e tornou a sentar-se.
A platéia não compreendeu uma só palavra do que ele disse e, diante disso, ficou devidamente impressionada.
- Agora, Theophilus Black, diga-nos onde está e o que vê.
A resposta veio imediatamente, mas as palavras foram pronunciadas devagar, como se aquele que falava fosse obrigado a traduzir seus pensamentos para uma língua que não lhe era familiar.
- Estou numa grande cidade, na capital do mundo civilizado. De todos os lados altos edifícios brancos levantam-se para o céu, enquanto as ruas estão repletas de gente ocupada. Há também muitos carros puxados por cavalos, mas a cada ano esses veículos aparecem em menor número, pois recentemente foi inventada uma carruagem que corre sem cavalos. Desde a invenção dessas carruagens sem cavalos os pedestres também diminuíram. O país é rico e poderoso, e seus cientistas são os maiores que o mundo já conheceu.
- Qual é o nome desse país? - perguntou Aloysius, tentando controlar sua comoção. Até ali os resultados estavam sendo muito melhores do que tinham sido anteriormente.
Houve uma breve pausa, e o Sr. Black disse então:
- Seu nome nativo nada significa para vós, mas chegou até vós, como lendário, o de Atlântida.
Um arquejo unânime levantou-se da platéia. A autenticidade da Atlântida mítica estava, realmente, sendo provada! Não admira que estivessem perturbados e emocionados.
- Eu disse que nossos cientistas são os maiores que o mundo já conheceu - continuou o Sr. Black, na mesma voz hesitante, um tanto monótona - mas ultimamente caíram no desprestígio, tudo por haverem profetizado coisas que o povo não tem prazer em acreditar. Durante muitos anos soubemos que o fundo do oceano se está levantando. Nossas próprias planícies costeiras têm afundado, enquanto nossos marinheiros relatam que, em pontos distantes de ambos os oceanos, o de leste e o de oeste, estranhas ilhas novas têm aparecido. Nossos cientistas estudaram esses relatos e anunciaram que o aparecimento de ilhas marcam o inicio de um grande cataclismo da natureza, que levantará novos continentes do fundo do oceano, derramando as águas que agora os cobrem sobre a Atlântida e sepultando-a para sempre. Naturalmente, o povo reluta em aceitar tal predição, pois lhe parece impossível que a Atlântida, a sábia e bela, possa um dia perecer.
- Ninguém crê nos cientistas? - perguntou Aloysius.
- Ninguém, exceto umas poucas seitas religiosas, que acreditam ter sido profetizado o fim do mundo. Um de nossos negociantes aproveitou-se da credulidade dessa gente e anunciou em sua loja uma venda especial de linho fino, para mantos de ascensão.
- Quando acham os cientistas que se dará essa grande catástrofe?
- Dentro de dez anos.
Aloysius esperou vários segundos antes de tornar a falar. Depois, disse:
- Passaram-se seis anos. A catástrofe está apenas a uma distância de quatro anos. Diga-nos o que acontece agora na Atlântida.
A resposta veio prontamente:
- Terremotos começaram a sacudir o nosso pais. Dois vulcões tornaram-se ativos. O fundo do oceano, para leste e oeste, está se levantando rapidamente.
- O povo ainda duvida das predições dos cientistas?
- Mais alguns cessaram de duvidar. Esses estão construindo grandes barcos, nos quais, se a água começar a invadir a terra, fugirão para o pequeno e bárbaro continente de Yropa, a nordeste. Os barcos são muito grandes. Levarão animais e víveres, bem como homens e mulheres.
- Papagaio! - exclamou uma reverente voz britânica, lá do balcão. - Uma frota inteira de prósperas arcas de Noé!
Aloysius gesticulou energicamente pedindo silêncio e voltou-se para seu paciente.
- Agora já se passaram mais três anos. O desastre está apenas a um ano de seu prazo.
A platéia inclinou-se para a frente, retendo o fôlego, a fim de apanhar a resposta. Dessa vez a voz que a deu era deformada e tensa.
- O céu está escuro pelas cinzas dos vulcões. Cidades inteiras foram destruídas por terremotos. Chegam até nós notícias de que o mar cobriu uma porção de Yropa, criando grande ilha para o largo oeste da costa, onde antes era uma península. Também um grande trato de terra, com o feitio de uma bota, emergiu do mar, ao sul de Yropa. Por fim o povo da Atlântida acredita no que os cientistas corretamente predisseram, mas agora é tarde demais. A maior parte dos barcos já partiu para estabelecer colônias em Yropa e em outros lugares bárbaros. Quanto aos outros, seus comandantes enriquecem, conduzindo em excursões, apenas de ida, passageiros para as novas ilhas. A Atlântida é um continente condenado.
A voz silenciou num gemido, como se fosse o último arquejo da civilização moribunda que descrevia. A platéia, desprendendo o fôlego retido, fez eco ao gemido.
Do meu lugar nos bastidores eu tentei fitar os olhos de Aloysius. A experiência já se adiantara suficientemente, sem dúvida, e já era tempo de acordar os pacientes. Além disso, durante os últimos minutos, o Chefe Chuva-no-Rosto vinha dando sinais bem claros de inquietação, como se estivesse passando, sem no entanto saber expressá-las, pelas mesmas experiências mentais do Sr. Black. Mantê-lo em estado hipnótico por muito tempo mais poderia trazer complicações.
Mas Aloysius ainda não terminara. Um clarão surgiu em seus olhos, clarão que eu conhecia bem demais, e ele firmou-se para arremessar o clímax verdadeiro de sua experiência:
- A hora da catástrofe chegou! - gritou ele, em tom vibrante. - A Atlântida está afundando! As águas a estão envolvendo! Diga-me o que está vendo!
Houve um momento de tensão elétrica, tão forte que poderia ter carregado uma bateria. Então veio a resposta, mas desta vez não em palavras, mas em ações.
Antes que alguém compreendesse inteiramente o que estava acontecendo, o Chefe Chuva-no-Rosto tinha dado um salto de sua cadeira. No momento seguinte corria para a beirada do palco com os braços estendidos em perfeita imitação de um nadador do Canal Inglês. Parando à borda do palco, apenas por uma fração de segundo, executou perfeito mergulho para o regaço de uma dama obesa que estava sentada na fileira da frente!
Instantaneamente estabeleceu-se o pandemônio. Mulheres berravam e homens gritavam. Houve uma correria aloucada para as saídas, na qual cada um parecia meter-se pelo caminho do outro. Apertaram um botão errado, do que resultou o funcionamento, não da eletricidade, mas do esguicho de emergência contra fogo, e jorros de água começaram a esguichar em todas as direções. Soubemos, depois, que aquilo fizera que muita gente acreditasse que todos quantos ali estavam tinham sido transportados de corpo e alma para a Atlântida que se afundava, e com ela iam se submergindo.
Em vão Aloysius apelava para que se mantivessem calmos, assegurando-lhes que tudo estava em ordem. Entretanto aquela gente pensava apenas numa coisa: em sair dali, rapidamente, enquanto ainda conservava um fio de cabelo.
Na agitação, os dois outros pacientes da experiência foram completamente esquecidos. E é doloroso pensar qual podia ter sido a tragédia de pelo menos um deles, se um som surdo, de engasgo, não me tivesse chamado a atenção. Fui investigar. Era o pobre Sr. Black, batendo as mãos, desamparadamente, em sua cadeira, emitindo os mais horríveis arquejos e gemidos, como um homem no último ponto do afogamento.
- Aloysius! - berrei, lutando para me fazer ouvido em meio ao alvoroço circundante. - Você precisa tirar o Black do período atlante, depressa! O pobre diabo não sabe nadar!
Depois que aquela confusão toda passara e Aloysius fora notificado por um colérico sargento da policia, de que "se houver mais besteiras desta, professor O'Flannigan, senhor vai parar na cana com os demais otários", permitiram-nos que fôssemos todos para casa.
Para minha surpresa Aloysius nem de longe estava tão abatido quanto eu esperava.
- Confesso que o assunto, lá para o final, escapou um pouco ao controle - disse-me, filosoficamente. - Mas, a despeito disso, a experiência teve êxito. Provamos, sem dúvida alguma, a existência, em certa época, da Atlântida.
- Não estou tão certo disso - respondi azedo. - Ouvi um par de repórteres dizerem que a coisa toda pode ser explicada como pura sugestão mental.
Aloysius apenas sorriu.
- Evidentemente, sempre haverá céticos - disse ele. - Mas eu tenho prova material, que não pode ser afastada com uma explicação.
- Prova material? - repeti eu. - Que é que você está querendo dizer?
- Durante muito tempo - começou ele - certos cientistas afirmaram que existem ultra-dimensões no tempo e no espaço, as quais, se fossem inteiramente compreendidas, poderiam apresentar-se tanto física como mentalmente. Não me pergunte como, agora, pois não sou matemático. Tudo quanto sei é que, de certa forma, a relação mental do Sr. Black com o passado tornou-se tão forte que ele pôde fazer passar através dessas dimensões, um autêntico espécime material do continente da Atlântida que afundava. Tirei-lho da boca, quando tratava de ressuscitá-lo. Aqui está.
Pôs a mão no bolso e de lá tirou - pela cauda - um peixinho morto!
Fiquei a olhar para aquilo, incrédulo.
- Cavala sagrada! - arquejei.
Aloysius sacudiu a cabeça.
- Não, Eric - corrigiu ele, com seu respeito habitual pela exatidão científica - é apenas um ciprinoide.
(“Maravilhas da Ficção Científica”)