Fazer versos

 

Guilherme de Almeida 

 

- Sim, custou muito. Foi preciso, primeiro, que eu fosse bem criancinha ainda e chorasse muito sem saber por quê... E mais tarde...

... que eu descobrisse o arco-íris, achasse lindo, mas lhe desse as costas para compreender o sol. E depois...

... que eu aprendesse a ler e a escrever, achando interessante o desenho das letras, suas curvas e suas retas. E então...

... que eu começasse a dizer as palavras e a gostar delas, independentemente do seu sentido, apenas pela sua musicalidade. E por isso...

... que eu procurasse saber como foi e para o que foi que elas nasceram, e por que, e onde, e quando. E, pois...

... que eu percebesse serem elas multiformes, variando segundo o tempo e o espaço e a boca das raças diferentes que as dizem. E, no entanto...

... que eu entendesse ser a sua forma, na grafia e no som, diferente, sendo todavia um mesmo o seu sentido, isto é, o seu espírito. E este era preciso...

... que eu achasse parecido com aquela, como a alma se parece com o corpo. E, baseado nessa harmonia...

... que eu elegesse a expressão exata, capaz de exprimir qualquer coisa...

... que eu a criasse e guardasse em mim, fechada, secreta, proibida, porque me pareceu imortal. Mas, para que não morresse ela comigo...

... que eu tivesse a coragem de tirá-la do meu mundo e revelá-la e entregá-la ao mundo de todo o mundo. E agora...

... que, retrocedendo, voltasse eu à criancinha que fui, chorando muito, sem saber por quê.

Isso, aí em cima, para responder à pessoa amiga que me perguntou, outro dia, se me custou muito fazer o meu primeiro verso.

 

(09/10/1961)

 

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