
A princesa Nadima, "flor de perfume raro e de esquisito encanto", aparece — Preocupa-se o Rei com o noivado da jovem — Como escolher um noivo entre sete pretendentes? — O artifício de Nadima — Do sonho resultou um juramento — Qual teria sido o sonho da Princesa?
As minhas grandes saudades? / São do que nunca alcancei,
Ai, como tenho saudades / Dos sonhos que não sonhei!
Informada por uma escrava de que o pai acabara de chegar, Nadima, "flor de perfume raro e de esquisito encanto", ergueu-se de seu leito fofo de almofadas, envolveu-se com uma linda "mlahfa" de sutil e levíssimo tecido e, seguida de suas aias, foi ao encontro do inesperado visitante.
O califa beijou carinhosamente a filha, que era, por certo, Lâmpada de sua noite! Água de seu deserto! Árvore luminosa no seu caminho!
- Que agradável surpresa, meu pai! - exclamou Nadima com meiguice, disfarçando num sorriso divinal, a curiosidade que a invadira. - A que devo eu a alegria desta visita?
- Minha filha - atalhou o califa, interrompendo a jovem - precisamos conversar muito seriamente sobre o teu futuro. Preso, como estou, há mais de cinco anos, por um juramento, não poderei escolher o teu noivo; essa escolha deverá ser feita unicamente por ti.
E, depois de afastar com ligeiro aceno as servas e aias, o monarca prosseguiu:
- Bem sabes, minha querida Nadima, que cinco nobres, de alto renome, almejam a tua mão. O príncipe Mohamed Rahmã, do Adjemi, é certamente o que mais nos interessa pela aliança militar que me acaba de propor. Yemenjovem Obeid, rei do Iemen, oferece-te um dote riquíssimo. Não me desagradaria, igualmente, se a tua escolha recaísse no Xerife Aran Abder-Theilun, homem de prestígio insuperável entre as tribos do deserto. Confesso, por outro lado, que desejaria obter, pelo parentesco, a amizade do poderoso Ali Abdel-Aziz, do Egito, um dos teus mais fervorosos apaixonados. Figura ainda, entre os teus pretendentes, o poeta El-Moik Badiah, filho do Xeque de Medina, dono de incontáveis riquezas e muito estimado pelos persas. É preciso, pois, minha filha, que tomes quanto antes uma decisão. A paciência dos teus apaixonados é limitada e não desejo, modo algum, irritá-los com uma demora para a justificativa da qual as boas razões falecem.
Respondeu Nadima, de rosto submisso e voz quebrada:
— Bem sabes, meu pai, que o meu coração não se inclina por este, nem por aquele. Não conheço esses príncipes ilustres e não posso adivinhar qual deles o Destino terá assinalado para meu esposo. Longe de mim, porém, a intenção de ofender, com uma recusa ou desagradar, com uma escolha precipitada, homens tão ricos e de tão grande valimento. Compreendo muito bem que um desses príncipes, ferido na vaidade, pode tornar-se de um momento para o outro inimigo rancoroso, capaz até de perturbar a paz em nossas fronteiras...
- E então, minha filha?
- Diante dessas ponderações - continuou a jovem, levantando serena o olhar meditativo - julguei que seria mais prudente submeter os meus pretendentes a um concurso no qual cada um deles pudesse evidenciar os seus dotes de coração e de inteligência. Um dos cinco candidatos será o vencedor e meu pai proclamará então: "Ao vencedor, a noiva!"
- E já pensaste, ó Nadima!, na forma de realizar esse concurso?
O califa tinha os olhos fitos na filha, procurando sondar-lhe o pensamento. E ela, num tom de voz macio e aveludado respondeu, fazendo aflorar nos lábios um sorriso arisco:
- Certamente que sim, meu pai. Os pregoeiros, por tua ordem, levarão a todos os recantos da cidade e ao conhecimento de todos os meus pretendentes que eu, impelida por um juramento (por mim proferido por causa de um sonho) só poderei unir-me a um homem que provar - perante sábias testemunhas - que já se utilizou da própria sombra para um fim nobre!
- Minha filha - ponderou serenamente o soberano — a estranha condição que acabas de expor é certamente um capricho gerado no mundo de teus pensamentos. Na tua alma ingênua desabrocham sonhos... e queres orientar a tua vida por um sonho. É rematada loucura. Afirmo-te que os sonhos se desfazem de repente para martirizar o sonhador. Os sonhos passam como as nuvens passam. Escuta, minha filha. Abandona de vez o mundo da ilusão. O sonho engana; o sonho ilude. O sonho é um latejar da vida, onda fervente e amarga.
(A Sombra do Arco-Íris)