
Os dois momentos a seguir por assim dizer se entrelaçam, embora mediando entre eles cerca de sessenta e cinco anos.
O primeiro momento: lembro-me como se fosse hoje. Morava em Marília (sempre Marília!), teria mais ou menos dez anos e acabava de cursar meu quarto ano letivo.
Terminara o chamado curso “primário” em um colégio de freiras (“Sagrado Coração de Jesus”), onde sempre fui muito bem tratado pelas Irmãs e onde até comecei curso de piano. Os nomes de algumas delas permanecem indeléveis em minha mente e em meu coração: Irmã Lídia, Irmã Ada, Irmã Raquel (aquelas que me eram mais próximas)...
Lembro-me até do “Hino de Despedida” – pudera, ensaiamos o ano inteiro! (“Meigo adeus recebei, companheiros, com braçadas de flores e afetos...”).
Ocorre que, apesar da excelência, o Colégio era particular e não tinha registro no MEC. E que assim, para a conclusão do “quarto ano” todos deveriam submeter-se a exames em escolas públicas regulares. Dessa maneira, eu faria exames no 1° Grupo Escolar de Marília.
À medida que a data se aproximava eu ia ficando apreensivo, tenso mesmo. Como seriam as provas? Muitas questões?
Não sabia. Entretanto, debaixo da aparente tranqüilidade que eu mostrava, estava um coração aflito e agitado - era como se eu fosse para um lugar distante, como se estivesse atravessando um trecho de mar. Eu era muito novo e praticamente nada sabia além do que ocorria em casa, na escola e na Igreja.
Até que finalmente chegou o dia.
Em casa, meu pai e minha mãe me cercaram com mais carinho do que o costume, orientando-me sobre tudo e acalmando-me.
O que realmente marcou e ficou indelével em minha lembrança foi o lanche que minha mãe fez para eu comer no intervalo. Não me lembro de que era, mas só me recordo de que estava uma delícia, inda mais acrescido do amor com que ela o preparou. Mesmo que hipoteticamente fosse um simples pão com mortadela ou com ovo, pareceu-me divino...
Mas, o que tem este episódio com uma “noite do pijama”?
Justamente aqui ocorre o segundo momento: esta semana a escola onde minha netinha Lira freqüenta o “Maternal II” está promovendo a “noite do pijama”. Ela tem cinco anos e mora comigo juntamente com os pais.
Para quem não sabe, numa “noite do pijama” os alunos vão para a escola por volta das 18 horas para passar a noite com os coleguinhas e as professoras. Levam roupas, toalha, escova de dentes, etc. (além do pijama, é claro). Quem tiver fitas cassete de filmes infantis e lanterna, pode levar também. As professoras preparam atividades para encher o tempo até a hora de dormir. É mais ou menos uma simulação do que ocorre nos lares, só que de forma coletiva.
Em casa, a preparação se assemelhou, acredito, à dos meus exames de quarto ano.
A começar pela mãe, que a acompanhou nos preparativos, desde um banho todo especial até à arrumação da mochila, com tudo que é necessário. E também os conselhos, desnecessários, talvez. Cercou-a de muito carinho e deu-lhe algumas coisinhas para comer.
Soubemos que mais ou menos cinqüenta por cento dos alunos não iriam participar - ou porque não quiseram, ou porque os pais não deixaram.
Nem imagino por quê, visto que estiveram juntos durante todo o ano e aprenderam a se entender e a se conhecer. O que eu imagino, isso sim, é de quantos que teriam deixado de participar por medos e receios...
Graças a Deus nada disso aconteceu com a nossa netinha. Estava muito segura de si e ansiosíssima por aquela "noite"...
- Vô – disse ela quase na hora de ir, - telefone para o Michel (primo) e diga para ele não chegar muito cedo amanhã, que provavelmente ainda estarei na Escola.
Na hora de sair, despedidas entre beijos e abraços.
Que delícia será uma “Noite do Pijama” com todos os coleguinhas da Escola... Quantas atividades iriam desenvolver - brincar um pouco, tomar chá antes de dormir... E de manhã, escovar os dentes, tomar banho, arrumar os cabelos, e ir para o esperado café da manhã.
Tenho certeza que, como ocorreu comigo, quase setenta anos atrás, esta noite nunca mais será esquecida pela Lira!... E com certeza amanhã, na volta do tão aguardado encontro noturno, haverá muitas coisas para contar.