O exagero da prece

 

Antonino, que sucedeu a Adriano no governo de Roma, era sóbrio, clemente e justo. Durante o seu reinado foram os povos beneficiados por largo período de paz. Sempre disposto a proteger os desgraçados e a amparar os fracos, foi esse bom monarca, verdadeiramente, o pai de seu povo. Ouvia com respeito os sábios e atendia aos judiciosos conselhos dos mais velhos.

Freqüentava a corte de Antonino um douto rabi chamado Judah ha-Nasi.

Um dia o imperador pediu que o rabi o esclarecesse sobre um ponto da doutrina que lhe parecia obscuro:

- Deve um homem, dentro dos princípios de sua fé, rezar a todo instante e erguer suas preces a cada momento?

- Esse exagero que leva o crente a uma prece desarrazoada não é permitido - esclareceu o rabi - e tal proibição tem por fim impedir que o homem se habitue a invocar em vão o nome do Altíssimo.

Não compreendeu o romano o sentido dessa explicação e retorquiu com certa brusquidão:

- A razão que alegas, ó rabi!, a meu ver não tem cabimento. Seria um contra-senso aceitá-la.

O velho ha-Nasi, não insistiu sobre o caso, mas, no dia seguinte, apresentou-se muito cedo na sala do trono e ao entrar cumprimentou respeitoso o imperador, erguendo bem alto a saudação:

- Salve Tito Aurélio Fúlvio Antonino, senhor de Roma, dominador do mundo! Ave César Augusto!

Sentiu-se Antonino lisonjeado com aquela honrosa cortesia. Mas o rabi, meia hora depois, ergueu-se solene e proferiu pela segunda vez, em voz clara e vibrante, curvando o busto em ligeiro recuo:

- Salve Tito Aurélio Fúlvio Antonino, senhor de Roma, dominador do mundo! Ave César Augusto!

E passou a repetir, de meia em meia hora, essa mesma cortesia. Na quarta ou quinta vez irritou-se o imperador, que advertiu indignado:

- Como te atreves, ó rabi!, a zombar assim da realeza? Que pretendes com essa saudação insistente e despropositada?

O sábio e judicioso Judah ha-Nasi, acentuando tragicamente as palavras e lançando um grande gesto em redor, assim falou:

- Meditai, o César!, sobre o que acaba de suceder. Sois, na verdade, um rei mortal e, no entanto, não podeis suportar que vos saúdem de meia em meia hora. E, antes de findar o dia, fizeste calar o importuno. Mais censurável será a impertinência daquele que se dispuser a saudar a todo instante o Rei dos Reis!

 

("Lendas do Povo de Deus")

 

voltar

home