Evita o maldizente

 

Um velho mercador de Damasco ao encontrar, certa vez, um de seus amigos, disse-lhe:

- Vejo-me forçado a evitar a tua companhia, porque ouvi hoje, ao sair para o trabalho, alguém insinuar torpezas a teu respeito.

Replicou o amigo, encarando-o de frente, muito sério:

- Já me ouviste maldizer de alguém?

- Não — confessou o damasceno, surpreendido.

- Sendo assim retorquiu-lhe o amigo, com a mais natural segurança - evita a companhia dos caluniadores que falam contra mim. Amanhã assacarão também calúnias e torpezas mais terríveis, talvez, contra ti.

Podemos comparar o caluniador à serpente venenosa e traiçoeira.

Conta uma lenda que os animais, um dia, interpelaram a serpente:

- O leão - alegaram eles - atira-se contra a presa, mata-a e devora-a. Estraçalhada pelo lobo, a ovelha serve de alimento. O tigre, quando faminto, ataca o carneiro e arrasta-o para o seu covil. E tu, hedionda serpente, que fazes? Mordes e inoculas veneno. Ora, que proveito tiras da tua perversidade peçonhenta?

Responde a serpente retorcendo-se, esverdeada:

- Nada espero dos golpes venenosos que desfiro. Do mal que faço não tiro o menor proveito. E procedendo assim, traindo, envenenando, semeando a dor e a morte, não sou pior que o caluniador.

 

("Lendas do Povo de Deus")

 

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