
Vou omitir o seu nome. Vamos chamá-lo de Renato.
Ele era um dos dois filhos que minha sogra teve – um casal. Ela foi minha esposa fiel por quarenta anos.
Renato gostava muito de estar perto de mim. Mas a sua juventude foi dura. Enveredou pelos caminhos da bebida, tornando-se viciado com dezesseis anos. Refugiava-se em uma pequena tinturaria na Avenida Vicente Ferreira, em Marília, cidade onde morávamos, e lá passava o dia todo e muitas vezes a noite também: bebendo e "ajudando" a passar calças sem nada ganhar – apenas pelo prazer de estar ali, sem compromisso e embalado pelo álcool – e pela maconha. Aliás, chegou a plantar no jardim do meu sogro alguns pezinhos de maconha, que o meu sogro não sabia o que era, mas que era uma planta muito bonita, bem verde. E ele regava todos os dias, para júbilo do Renato.
No Natal e nas festividades do Ano Novo, vinha para casa, pois sabia que eu e minha esposa ali estaríamos para cantar e conversar.
Era meu sogro quem preparava pessoalmente todas as iguarias que iriam à mesa, desde frangos, peru, leitoa e cabrito e o mais, e que ele fazia questão de matar, limpar e assar.
Depois do almoço de Natal, por exemplo, eu me deitava para descansar em uma das camas de um grande quarto da casa, ele se deitava em outra e, bastante bêbado, desatava a cantar.
O que era de admirar era a sua resistência aos efeitos do álcool. Bebia mas não tinha sono e não caía.
No período em que fui fiscal da Carteira Agrícola do Banco do Brasil – cerca de três anos, em que eu saía de madrugada em direção à zona rural com o objetivo de visitar diversas propriedades, ele fazia questão de ir comigo. Eu chegava em sua casa lá pelas seis horas da manhã e, a despeito da bebedeira do dia anterior, ele se levantava e sentava no banco do jipe, onde tirava um cochilo até que chegássemos ao primeiro ponto do roteiro.
Levávamos sempre uma espingarda Winchester e um revólver – este para espantar os eventuais cães que quisessem impedir o nosso desembarque na sede das propriedades. Isto porque, em certa ocasião, desci do jipe para cumprimentar o proprietário das lavouras e um enorme cão me fez retornar correndo para dentro do veículo. Desde esse dia jurei que, caso fosse novamente atacado, eu mataria o animal (ainda bem para mim que isso nunca aconteceu!).
Quem usava as armas era o Renato: enquanto eu percorria as lavouras e tomava nota de tudo, ele saía pelas imediações, tentando atirar em rolinhas, preás, codornas, e até em lagartos e cobras.
Era uma diversão para ele – e também para mim. Com essas investidas dele sobre os animais da região, chegamos a comer pombos, preás, codornas e cobras (carne deliciosa).
Mas a vida dá muitas voltas. Juntou-se com uma mulher separada e com ela teve uma filha. Só que não conseguia se entender com aquela mulher. E nunca foi bem aceito por ela em sua casa, pelo fato de ser alcoólatra. A certa altura, a mãe de sua filha, que se tornara uma pedra em seu sapato, faleceu, deixando para ele o cuidado da filha, já com seus seis anos.
Bem, ele comemorou. Por quê? Não me pergunte que eu não tenho a resposta.
O tempo passou e certo dia ele apareceu com uma outra, a Ester, morena bonita, lá pelos seus vinte e oito anos. Tinha bons sentimentos para com ele e com a filha.
Ester era evangélica e, pasme caro leitor, conseguiu um verdadeiro milagre: tirou-o da sarjeta, do vício e das más companhias. Mas tirou-o de verdade, pra valer.
Hoje ele é outro: sério, compenetrado, bom amigo e bom marido. É claro que ele evita tomar bebidas que, mesmo de longe, o possam novamente atrair para o vício. Nem mesmo bebidas engarrafadas como guaraná e coca ele aceita.
Eu, de minha parte, só tenho que render louvores ao meu Deus por aquela transformação!...