As estátuas e o beduíno

 

Outra história sem fim...

 

Deveis saber, ó irmão dos árabes! - que existiu outrora, para além das montanhas de Kabul, um país muito rico e populoso chamado Kafiristã.

O Kafiristã era nesse tempo governado por um soberano integro e sábio cujo nome a História registrou e perpetuou em páginas magníficas, para maior glória dos povos do Islã. Deveis saber também - pois bem poucos são aqueles que o ignoram - que esse monarca famoso a que nos referimos foi Romalid Ben-Zallar Khã.

Dando ouvidos aos conselhos de um vizir insidioso e bajulador, o rei Romalid (Allah o tenha em sua glória!) mandou erguer na grande praça da capital três belíssimas estátuas. A primeira era de bronze a segunda de prata e a terceira não obstante ser a maior - era toda de ouro. Todas representavam o rei em atitude de combate, a erguer ameaçador um grande alfanje recurvado.

Um dia o vaidoso Romalid repousava descuidoso na varanda de marfim de seu palácio, quando notou que um velho beduíno, pobremente vestido, se aproximava do lugar em que se achavam os três monumentos. Ao ver a estátua de bronze, o árabe do deserto ergueu os braços para o céu e exclamou:

"Que Allah, o Exaltado, conserve o nosso rei!". Ao defrontar logo depois a estátua de prata o beduíno riu alegremente e disse em voz bem alta: - "Que Allah, o Altíssimo, abençoe o nosso rei!". Ao topar, porém, com o rútilo e áureo monumento, o beduíno atirou-se ao chão e como um louco entrou a gritar desesperado: - "Que Allah, o Clemente, salve o nosso rei!".

O sultão, que tudo observara, mandou que trouxessem o aventureiro desconhecido ao seu palácio e em presença dos vizires mais ilustres da corte, interrogou-o sobre a significação dos votos que proferira e das atitudes diversas e inesperadas que havia assumido, diante de cada uma das estátuas.

O velho beduíno, homem inteligente e astucioso, interpelado pelo poderoso senhor do Rafiristã, inclinou-se respeitoso e exclamou:

“Allah alá tiac in manlei!” (Que Deus conserve a vossa vida, ó rei!) Devo dizer primeiramente que o meu nome é Salã Motafa. Pertenço a um grupo de nômades do deserto que hoje, para breve repouso, acamparam junto às portas desta cidade. Há dez anos que não vinha ao Kafiristã e não conhecia os três novos monumentos ora erguidos ali no meio da praça. Ao ver a estátua de bronze compreendi que ela representava o nosso rei Romalid Ben-Zallar Khã sultão magnânimo e afortunado. Prestei, pois, como humilde súdito que sou, minhas homenagens à figura imponente e respeitável do soberano, rei e senhor deste rico país. Pensei: "Se não houvesse um rei, justo e forte, para governar e dirigir o povo, este andaria na terra como em pleno oceano, um batel sem piloto".

- Ao avistar logo depois a estátua feita de prata pensei: "Se o rei mandou fazer uma estátua tão cara é porque tem as arcas do Tesouro a transbordar de dinheiro. Há, portanto, notável e completa prosperidade no país!". E este raciocínio trouxe-me ao espírito grande alegria, que externei com a maior sinceridade ao exclamar: - "Que Allah o Altíssimo abençoe o nosso rei e por muitos anos o conserve! O que é muito puro de sangue, de linguagem e de conduta, o que é poderoso reto e consumado político, é digno de reinar na terra".

Ao verificar, porém, que a terceira estátua era de ouro maciço fiquei assombrado. – “O rei enlouqueceu” - pensei. “Onde já se viu, em que terra e em que lugar, um soberano desperdiçar tanto dinheiro numa estátua de ouro quando há tanto benefício a fazer-se e tanta necessidade a remediar-se?! Pobre e desventurado rei! Está completamente dominado pelo delírio das grandezas!" E esta triste conclusão afligiu-me de tal modo que de mim se assenhoreou grande e incontida aflição. Atirei-me desesperado ao chão e implorei a proteção de Deus: - "Que Allah, o Clemente, salve o nosso rei!".

Achou o sultão muita graça na original explicação dada pelo inteligente forasteiro e perguntou-lhe:

- Acreditas então, ó beduíno tão bem dotado! - que eu poderia ficar louco sem que os meus súditos o percebessem?

- Acredito, sim, ó rei dos reis - afirmou o beduíno. Não conheceis o caso ocorrido com o rei Talif?

- Não é possível, mesmo a um rei, conhecer os casos que se deram com todos os reis. Possivelmente, ignoro o que ocorreu com esse meu digno antecessor.

- Pois é a história mais espantosa de quantas tenho ouvido - respondeu o beduíno. - Trata-se de um rei que verificou ter acontecido consigo mesmo uma anomalia realmente fantástica: durante nove anos, apesar de completamente louco, governava tranqüilamente um dos países mais prósperos e mais ricos do mundo! E houve ainda, no caso, uma particularidade notável. No dia em que o rei Talif achou que seria prudente enlouquecer ficou inteiramente curado da demência que o aniquilava!

- Por Allah! - exclamou o sultão. - Será possível que um rei demente possa governar com acerto um grande país? Conta-nos, ó Filho do Deserto! Conta-nos esta história que me parece curiosa!

- Escuto e obedeço - respondeu o nômade, beijando humilde a terra entre as mãos. - Conto com a vossa generosidade. O coração do bom, embora agastado, não muda. Não é possível aquecer a água do oceano com a luz de uma vela!

E na sua voz forte e cadenciada, como o andar de uma caravana, o astucioso beduíno iniciou a seguinte narrativa:

 

(“Mil Histórias Sem Fim”)

 

(continua – História de um povo triste)

 

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