
Os três ministros e a bela estátua. O que disse ao rei o terceiro vizir para livrar-se do perigo que o ameaçava.
Houve outrora no país de Panjgur, na índia, um rei que tinha três ministros.
Querendo um dia verificar o grau de estima e consideração em que era tido pelos seus três dignos auxiliares, ordenou o monarca fosse colocada no meio do grande parque do palácio real uma estátua dele próprio e, escondido em discreto recanto, pôs-se à espera para observar o que fariam os ministros quando vissem inesperadamente aquele novo monumento.
O primeiro a chegar foi o ministro da Justiça. Ao defrontar com a estátua do rei no meio do arvoredo, parou muito sério, os braços cruzados sobre o peito, em atitude respeitosa, e examinou miudamente a obra de arte sem proferir uma única palavra, nem deixando transparecer a impressão que lhe causara o inopinado encontro.
Mal se retirara o primeiro-ministro quando chegou o seu colega encarregado das Finanças e do Tesouro do país.
O digno tesoureiro do rei Malabã - assim se chamava o soberano de Panjgur - ao ver a nova estátua cobriu o rosto com as mãos e entrou a chorar desesperadamente como se grande desgosto o oprimisse.
Ao rei que tudo observara causou isto não pequena admiração.
- Por que teria o primeiro-ministro ficado tão sério ao ver a estátua, ao passo que para o segundo o defrontar com ela era motivo de pranto desfeito?
Momentos depois chegou o terceiro-ministro. Era esse vizir encarregado unicamente de estudar as questões relativas às Forças Armadas e aos recursos militares do país.
O titular da guerra, ao deparar-se-lhe a imponente figura do vaidoso monarca entrou a rir com estrepitosas gargalhadas e de tal modo o dominaram os ataques de riso que chegou a cair de costas junto ao pedestal do régio monumento.
O rei Malabã, que além de orgulhoso era muito desconfiado - dois defeitos gravíssimos para um chefe de Estado, - ficou intrigadíssimo com a diversidade singular das impressões que sua imagem causara aos três dignos ministros de Panjgur.
A rígida gravidade do primeiro, as lágrimas do segundo e o louco gargalhar do terceiro eram enigmas que a régia sagacidade não podia decifrar o que sobremodo o afligia.
Incapaz de refrear a curiosidade que o estranho caso lhe despertara o rei Malabã partiu para o palácio e, tão depressa ali chegado, mandou viessem à sua presença os três ministros e lhes disse que queria saber o motivo por que ficara o primeiro-ministro tão sério, ao passo que o segundo chorara e o terceiro rira tanto.
O ministro da Justiça, compreendendo que devia ser o primeiro a falar, assim começou, depois de saudar respeitosamente o rei:
- Deveis saber, ó rei magnânimo! - que ao ver aquela belíssima estátua, para mim até então desconhecida, lembrei-me de vós e dos grandes benefícios que tendes prestado ao povo, aos meus amigos, aos meus parentes e a mim em particular. Resolvi, pois, dirigir a Allah, o Altíssimo, uma prece pela vossa saúde, prosperidade e bem-estar! Fiquei, como vistes, muito sério, ó rei generoso! - porque estava contrito em orações.
- Meu bom amigo! - exclamou o rei, abraçando-o. - Compreendo agora o quanto és sincero e dedicado! Jamais deixarei de retribuir a grande amizade que tens por mim!
E, voltando-se para o segundo-ministro, disse-lhe:
- Não compreendo, ó vizir-tesoureiro! - por que motivo a estátua pôde ser causa do teu grande desespero.
Assim interpelado, o ministro das finanças, depois de prestar ao rei Malabã a sua homenagem humilde e respeitosa, começou:
- Cumpre-me dizer-vos, ó rei do tempo! - que ao ver aquela bela estátua notei que ali estava a vossa figura posta no bronze pelo gênio incomparável de famoso artista. Este monumento é de bronze - pensei - e assim durará eternamente, ao passo que o nosso bondoso rei - na sua triste condição de mortal - não poderá sobreviver à própria efígie. Dia virá em que Hã-Ru, o Anjo da Morte, na sua eterna faina, arrebatará a alma preciosa do nosso estremecido rei! E esses pensamentos cruéis, sem que eu pudesse impedir, apoderaram-se de mim e tal tristeza me trouxeram ao coração que, dando livre curso às lágrimas, chorei desesperadamente!
- Grande amigo! - atalhou o soberano hindu comovido. - Jamais me esquecerei da prova sincera de amizade que acabo de receber de ti!
E depois de abraçar afetuosamente o ministro da Fazenda, o rei Malabã voltou-se para o terceiro vizir e censurou-o com enérgico rancor:
- Nas tuas gargalhadas, porém ó vizir! - não vi mais do que um insulto e um escárnio à minha pessoa! Não compreendo como poderás explicar a tua atitude descabida e irreverente! Cabe-te a vez de falar!
Ao ouvir palavras tais empalideceu o ministro da guerra, sentindo que a falsa interpretação do rei punha a sua vida em grande perigo.
Sem perder, porém, a calma tão necessária em tais situações, o digno vizir do rei Malabã aproximou-se do trono e depois de beijar humildemente a terra entre as mãos, assim falou:
- Rei generoso! Esteja o vosso nome sob a proteção dos deuses! Não sei mentir. Vou contar-vos a verdade, embora com sacrifício da minha vida, revelando-vos o motivo por que tanto ri ao topar com essa estátua!
E, diante do silêncio que se fizera, o terceiro vizir começou:
- Ao atravessar o parque do palácio, deparou-se-me um belíssimo monumento de bronze que representava a figura do glorioso sultão de Panjgur. Vendo a estátua lembrei-me naquele instante de uma história muito curiosa intitulada "O Beduíno Astucioso", que ouvi contar há dez anos no interior da Arábia! Foi a lembrança dessa história que me fez rir daquela maneira!
- Que história é essa? - indagou o rei Malabã, tomado da mais viva curiosidade.
- É uma das lendas mais chistosas que conheço - explicou o vizir. - Ouvi-a de um velho árabe quando atravessava o deserto de Dahna!
E narrou:
- Há, nesse deserto, uma gigantesca montanha de pedra lisa e acinzentada, que os árabes denominaram "A Sofredora”. Ao norte dessa montanha agreste encontra-se pequeno e acolhedor oásis, com muita sombra e água fresca onde florescem precisamente trezentas e trinta e três tamareiras. Dizem os caravaneiros que cada uma dessas trezentas e trinta e três tamareiras (com exceção de uma, e uma só), tem a existência ligada a uma lenda. Não há erro pois, em afirmar que o número de lendas, nesse oásis, é igual ao número de tamareiras menos uma! A lenda da décima terceira tamareira é aquela que tem por título "O Beduíno Astucioso”. Houve mesmo um sábio matemático que calculou...
- Não me interessam os cálculos das trezentas e tantas tamareiras - interrompeu, com impaciência, o monarca. - Quero ouvir sem mais delongas a singular aventura do beduíno astucioso com todos os episódios, versos ou fantasias que estiverem a ela relacionados.
O rei, já meio agastado, exigia a narrativa. Era preciso obedecer ao senhor de Panjgur.
O digno vizir concentrou-se durante breves instantes. Parecia coordenar as idéias e recordar os fatos que estivessem dispersos entre as brumas do passado. Decorridos finalmente alguns minutos, iniciou com voz pausada o seguinte relato:
(“Mil Histórias Sem Fim”)
(continua – "A Estátua e o Beduíno")