Estante nova

 

Rodrigo Lacerda 

 

Os livros tomaram conta do apartamento. Embaixo da mesa de jantar, em cima da TV, ao lado do som, no corredor, etc. Sem a estante velha na sala, perdi de vez o controle da situação. Ela podia ser pequena, mas, quando saiu, foi o caos. A vaga ordem com que os livros estavam amontoados simplesmente desapareceu. Todos os assuntos se misturaram e a memória visual de cada lombada se embaralhou.

Ficamos quinze dias errando por entre pilhas esquizofrênicas.

Na área de serviço, o purgatório da biblioteca, havia mais seis caixas grandes de papelão, transbordando de livros amassados, rasgados e úmidos. No armário, roubando lugar dos lençóis e das toalhas, mais uma prateleira cheia. Os livros se alastravam, nos expulsando, exigindo.

Uma bela noite chego do trabalho e já encontro minha mulher com o Inácio do gesso e seu pessoal. Estão fazendo o corpo da estante nova - do chão até o teto, da porta de entrada até o lado oposto da sala. Nossa filha dorme lá no quarto, apesar das marteladas e do zumbido estridente das brocas.

Na manhã seguinte, compro as mãos-francesas e as cremalheiras.

Antes de maiores progressos, um feriadão interrompe os trabalhos e nos força a passar muito tempo naquele pandemônio. Para sentar no sofá, afastamos uma pilha de livros; para comer na mesa, empurramos as ferragens. Mais angústia. Como não poderia deixar de ser, eu e as duas mulheres da casa começamos a brigar.

Finalmente outro dia útil, e vem o Agnaldo marceneiro. Fixamos as cremalheiras na parede. Nelas, em alturas variadas, prendemos as mãos-francesas. Estas encaixamos no oco das prateleiras. Fico contrariado quando me contam que as prateleiras ainda precisarão ser pintadas. Tenho pressa. Além disso, o nome da tinta me causa estranheza: Dióxido de Titânio. Altamente tóxica, eu imagino, e aceito-a como uma espécie de batismo de fogo para a estante nova.

Dois dias depois, minha mulher se encarrega dessa pintura. Eu, com medo de chegar perto da estante até que fique inteiramente pronta, saio de casa com minha filha.

Na última etapa da montagem, o zelador fatura algum pintando as cremalheiras. Usamos tons claros, como no gesso, nas prateleiras radioativas e na própria parede. A estante fica pronta. Só mais um pouco de paciência e a bagunça vai acabar.

Finalmente chega a manhã de sábado, dia da arrumação. Faz um frio gostoso e o céu está claro. Minha mulher saiu para trabalhar. Acordo e vejo nossa filha ao meu lado na cama. Está ferrada no sono.

Deixo o quarto na ponta dos pés, querendo algum tempo sem criança por perto. Doce ilusão. Um minuto depois, ouço chinelos de ratinho se arrastando e encontro-a no corredor. Ela me dá um abraço cheio de sono, eu retribuo com beijos mansos no seu corpo lânguido. Vamos até a cozinha. Preparo sua mamadeira de chocolate e faço uma xícara para mim.

Para esquentá-las, em câmara lenta, minha filha sobe num banquinho e se posiciona diante do microondas. Faz questão de apertar o botão pessoalmente.

Enquanto ela vai para o sofá tomar seu leite, se espreguiçando e ameaçando dormir de novo, começo a mexer nos livros. Minha mulher, antes de sair, tirou a poeira de alguns com um pano que deixou sobre a mesa de jantar. Examino-os por alto. Livros ilustrados, que há muito tempo não vejo com calma. Também não vai ser agora, minha cabeça está aérea demais.

Tento me concentrar e calcular quantos livros caberão na estante nova. Uma ponta de medo ainda persiste. Algo me diz que subestimamos o tamanho do caos. Só arrumando as prateleiras para ver. Aí calculo quanto tempo isto levará e desanimo antes de começar.

Minha filha me interrompe, dizendo que precisa ir ao banheiro.

Quando voltamos para a sala, coloco seu desenho animado preferido no vídeo. Tomando conta dela será impossível acabar a arrumação dos livros num dia só. Mesmo o poder hipnótico da babá eletrônica tem limites. E já que não vai dar, por que começar logo de manhã? Hesito. Sinto que preciso de um incentivo. Busco o som portátil e ponho para tocar um Pixinguinha. Abaixando um pouco o volume da televisão, digo para a minha filha que o nome dessa música é chorinho. Ela, divertida, acha que estou brincando.

Olho para a estante vazia. Lembro de todas as estantes que já tive. A laqueada de branco e com bordas arredondadas, de quando eu era criança. A de madeira aparente, da adolescência. Lembro dos tempos em que não tive estantes, quando vieram as mudanças - de solteiro para casado, de cidade, de estado, de casado para separado, e então para casado de novo, com a mesma/outra mulher - e com as mudanças vieram as caixas de papelão, as casas menores, a falta de espaço. Nunca mais vi todos os livros juntos. Até hoje guardo muita coisa no sítio do meu pai. Falando nisso, minha coleção Terramarear continua lá. Terra-mar-e-ar, que nome!

Viajo pela minha vida.

Aos poucos, vou colocando os primeiros livros na estante nova. Passo o pano, folheio rapidamente e boto na prateleira. Logo não os folheio mais. Os mais altos, por uma questão de aproveitamento de espaço, vão numa prateleira só, não importa o tipo; de fotografia, de arquitetura, o Atlas, o álbum sobre o Flamengo, os livros de pintura, os álbuns de retratos... A estante nova comporta esse ecletismo com a maior naturalidade.

Abro um livro mais antigo. Suas páginas amareladas têm um cheiro indescritivelmente bom. Deslizo os dedos sobre os tecidos, os papéis, as imagens, vejo as fotos coladas a mão, admiro os detalhes, os movimentos dos corpos, a gota d'água na coxa, o brilho nos olhos, o fio de ouro dos vestidos, as paisagens, as colunas, os templos. Abro outro, vejo a bola na rede. Um terceiro, e acho graça no gato, no homem, na escada e na jarra d'água parados no ar, congelados pela fotografia num vôo simultâneo.

Trago as caixas da área de serviço. Seis ao todo.

Busco os livros no armário do corredor. A primeira coisa que me cai às mãos são os quadrinhos, velhos heróis que eu reencontro com uma consciência assustadora do passar do tempo. Foguetes, cowboys, detetives, príncipes valentes, donzelas em perigo, gauleses irredutíveis. Poção mágica?

Abro outra caixa e descubro onde estão as biografias, já lidas e relidas na ânsia de aprender o segredo da genialidade. Ambição? Desprendimento? Vai saber...

As biografias podem ir numa prateleira mais distante. Quando precisar de alguma eu pego. Surge então, entre as pilhas de livros, a biblioteca do historiador que acabei não virando. Gregos e romanos. Feudalismo. Renascimento. Iluminismo. Revolução russa. Brados retumbantes. A história é uma prateleira dupla, bem no alto.

Pouco a pouco, todos os livros da casa vão sendo atraídos para junto da estante nova. Vem-me à mente um desses santuários ecológicos, onde as aves se reencontram após as migrações, cada espécie chegando de um lugar diferente do planeta. Elas se entregam satisfeitas ao conforto e à segurança da estante. Seus bandos sofreram, muitas ficaram pelo caminho. Agora, no dia da chegada, a alegria fala mais alto. Eu ouço e vejo a algazarra, saindo de dentro das caixas de papelão, espalhando-se pela sala, empoleirada nas prateleiras.

A estante recebe todos os meus livros. Sobra espaço. Pela primeira vez na vida tenho a sensação de ter mais espaço que biblioteca. Aproveito a chance inédita de aliviar as prateleiras do escritório. Lá encontro os autores mais queridos, que nunca saíram de perto de mim, nem desapareceram em caixas, despensas, casas alheias. Volto do escritório e encho mais prateleiras.

Enquanto guardo os livros faço milhares de associações, a lugares, a momentos, a pessoas. Livro a livro, livro a livro, livro a livro.

Passo o dia assim. Desligo do mundo. Anoitece.

O que eu fiz da criança o dia todo? São dez e meia agora. Meus livros bem guardados, enfim, e ao alcance da mão. Bendita grana extra.

A menina já foi dormir, segurando firme a mamadeira e seu paninho de segurança, na verdade uma rendinha azul que fizeram para ela. Minha mulher está no quarto, lendo, assistindo alguma coisa na televisão ou simplesmente cansada do trabalho. Chamo-a, quero que veja como ficou. Acendo todas as luzes. As cores brilham. Ando de um lado para o outro, ansioso por sua opinião. Ela está espantada de eu ter conseguido arrumar tudo num só dia, e sem que tenha podido me ajudar. Pergunta se sobrou algum espaço para os livros dela, também encaixotados. Eu respondo que sim. No escritório, duas prateleiras terminaram vazias. Na sala, tudo arrumado, também sobrou lugar. Final feliz. Acabaram as brigas e a casa voltou a ser nossa.

Levo as caixas vazias para o hall do prédio, empilho e deixo-as encostadas na lata de lixo. Depois de ficar abaixando e levantando, subindo escada e carregando peso horas a fio, eu paro e sinto a algazarra colorida da estante. É uma estante nova para mim. Nunca a tinha visto exatamente como está agora.

Com ela eu encerro minha viagem pelo caos e, moto contínuo, abro espaço para livros que ainda não tenho. Estou feliz, nostálgico, ansioso, melancólico, curioso e animado. Como sempre, mas diferente.

 

("Tripé – 1999")

 

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