O espelho mágico

 

Existia outrora na famosa cidade de Bagdá uma grande mesquita muito rica, cujas paredes eram feitas de mármore branco e azul.

No interior desse majestoso templo havia duas colunas de pedra cinzenta; na primeira um sábio fez gravar com letras de ouro a seguinte legenda:

A vaidade esmaga em nossos corações os bons sentimentos e faz com que esqueçamos os nossos defeitos.

Na outra, que era de ferro, podia ler-se em caracteres prateados este singular ensinamento:

Evitemos a inveja dos maus. A inveja é como a víbora cheia de veneno que se aproxima de nós.

Essas duas curiosas inscrições, ó irmão dos árabes, fazem-me recordar uma lenda intitulada "O espelho mágico", que foi narrada vinte mil e quinhentas vezes pelos mais célebres e mais hábeis contadores de histórias de Bagdá!

Que lenda interessante! Por Allah!

Vou contá-la, repetindo-a, se possível, com as mesmas palavras com que a ouvi.

Há muitos séculos vivia em Bagdá um velho mendigo que se chamava Nagazã.

Todos os dias Nagazã arrastava-se humilde pelos pátios das mesquitas ou junto à porta do mercado, coberto de andrajos, implorando o auxílio da caridade pública.

Certa vez, ao regressar para a choupana em que vivia, achou Nagazã no meio da estrada um espelho encantado.

Tinha esse espelho a singular propriedade de aformosear o rosto de qualquer pessoa, por mais feia e desajeitada que fosse.

Aquele que se fitasse no tal espelho via a sua imagem embelezada como se um artista genial tivesse retocado todos os traços de sua fisionomia, tornando-a perfeita e impecável.

Nagazã, o mendigo, era um homem inteligente, e percebeu desde logo que o espelho mágico, usado com habilidade, poderia transformar-se numa prodigiosa fonte de renda.

Desse dia em diante Nagazã passou a evitar por prudência a companhia de outros mendicantes, e só esmolava com o auxílio do espelho-maravilhoso. Quando um transeunte se aproximava ele apresentava a face do rutilante espelho e dizia:

- Observai, senhor, como é harmonioso e perfeito o semblante que Allah, o Altíssimo, vos concedeu e auxiliai com um pequeno óbolo aquele que teve a cruel desventura de nascer pobre, feio e estúpido!

Quando uma mulher passava, Nagazã dirigia-lhe servilmente as seguintes palavras:

- Levantai, senhora, por um momento o vosso rosto e contemplai os incomparáveis encantos que Allah o Onipotente modelou em vosso rosto delicioso e concedei uma piedosa esmola ao mais feio dos mortais.

Quem poderia ficar surdo e indiferente a tão lisonjeiras palavras? Quem deixaria de lançar um olhar, embora rápido à superfície polida do espelho encantado!

A vaidade se oculta em todos os corações, e os que eram iludidos pelo astucioso mendicante davam-lhe muitas e valiosas moedas. E mal podiam imaginar que pagavam apenas a ilusão momentânea que o espelho mágico lhes proporcionava.

Um dia Nagazã adoeceu e não pode sair a percorrer as ruas como fazia habitualmente. Chamou seu filho lezin, contou-lhe o segredo do espelho e mandou-o que fosse esmolar pelas praças e bazares, longe dos pontos preferidos pelos profissionais da mendicância. 

- Meu filho - disse Nagazã, - para que algum homem possa ser feliz na vida e levar a bom termo uma empresa qualquer deve evitar duas coisas que são prejudiciais: a vaidade própria e a inveja alheia!

Prometeu Iezin que não esqueceria o sábio e prudente conselho de seu pai e partiu levando sob o braço o espelho mágico.

Ao regressar, porém, não trazia no bolso uma única moeda; não ganhara, durante o dia inteiro, um mísero cequim.

- Que fizeste, meu filho? - perguntou o velho.

O jovem confessou que, ao olhar para o espelho, encantara-se com a beleza de sua própria fisionomia. Via-se muito diferente do que era realmente. E tão maravilhado ficou, que outra coisa não fez senão mirar-se no espelho mágico e elogiar-se a si próprio pelo aspecto encantador de seu semblante.

- Por Allah! - exclamou o mendigo - Já vejo que não passas de um tolo, um fraco. Ganhaste alguma coisa com a tua própria ilusão? Estás, porventura, menos feio? Não sabias, então, que esse espelho é falso e mentiroso? Uma diferença existe entre o homem de talento e o tolo. O homem de talento, para vencer na vida, procura lisonjear os outros; o tolo se lisonjeia a si mesmo.

E o velho Nagazã disse a seu filho:

- Voltarás ainda uma vez à cidade com o espelho mágico; mas só poderás tirar dele resultado se seguires fielmente os meus conselhos.

No dia seguinte voltou Iezin a esmolar pelas ruas da cidade. Mas, ao invés de procurar os recantos mais sossegados, quis causar inveja aos outros mendigos. Colocou-se perto de um grupo de maltrapilhos que esmolavam e começou a fazer uso do espelho mágico.

O resultado foi admirável. Todos os transeuntes vaidosos deixavam cair aos pés de Iezin moedas de ouro e prata. O jovem sorria orgulhoso, e divertia-se com a inveja torturante dos miseráveis pedintes que pouco ou nada recebiam.

Ora, um dos mendicantes, ao notar a sorte com que o jovem esmolava, começou a observá-lo e descobriu sem dificuldade que o espelho de Iezin era mágico.

Inspirado por um rancor surdo, foi a um bazar próximo comprou um espelho côncavo (desses que deformam as imagens) e, num momento em que Iezin se achava distraído contando o dinheiro ganho, trocou-o pelo espelho encantado.

Passados alguns minutos atravessou a rua um xeque barbirruivo, ricamente vestido, que se fazia acompanhar de dois amigos.

Certo de que tinha ainda em seu poder o espelho encantado Iezin aproximou-se do orgulhoso xeque e disse-lhe:

- Reparai, ó xeque, no vosso belo semblante reproduzido neste admirável espelho, e erguei louvores a Allah, o Exaltado, que vos proporcionou tão invejável fisionomia!

O xeque, que era um dos homens mais vaidosos da cidade, olhou para o espelho e viu o seu rosto monstruosamente deformado.

- Cão miserável! - exclamou furioso. - Queres te divertir à minha custa? Vou mostrar-te como se castiga um camelo audacioso!

E agrediu Iezin com uma série de socos bem aplicados e outros tantos violentos pontapés.

Vendo-se atacado, Iezin tratou de fugir o mais depressa possível, e voltou para casa ferido e maltratado.

O velho Nagazã compreendeu que seu filho havia sido vítima de um roubo, e que o autor da troca fora um dos mendigos que faziam ponto junto à mesquita.

Disse o ancião:

- Foste castigado, meu filho, porque esquecido de meu conselho não procuraste evitar a inveja dos maus.

E na velha mesquita de Bagdá, durante muitos séculos, as duas sábias inscrições faziam lembrar a curiosa lenda do espelho mágico:

Eis a primeira:

"A vaidade esmaga em nossos corações os bons sentimentos e faz com que esqueçamos os nossos defeitos".

Recordemos a segunda:

"Evitemos a inveja dos maus; a inveja é como a víbora cheia de veneno que se aproxima de nós."

 

("Lendas do Deserto")

 

voltar

home