
(Lenda persa)
Na velha cidade de Kashã - depois de longa e fatigante caminhada pelo deserto - a nossa caravana parou afinal para um descanso.
Notei com certa estranheza que as casas dessa velhíssima cidade persa eram em sua grande maioria rodeadas de pequenos canais cheios d'água, como se fossem plantas delicadas que um jardineiro prestimoso quisesse livrar da ação destruidora das formigas.
A um velho persa que nos servia de guia nas viagens perguntei curioso a razão daquele costume de isolar as casas, rodeando-as com os inestimáveis canalículos de água e lama.
- É por causa dos escorpiões! - respondeu-me risonho o bom do velhinho.
A cidade de Kashã - como depois tive ocasião de observar - é, em verdade, o lugar do mundo que possui maior abundância de escorpiões. A cada passo, nos campos, nas ruas, nos bazares e nas barracas, encontram-se os terríveis animalejos. Ao atravessar uma pequena praça, indo de uma casa para outra, esmagamos dois ou três dos perigosos aracnídeos de ferrão venenoso.
- E contou-me, enquanto caminhávamos vagarosamente para a casa do governador, a interessante lenda por meio da qual os persas explicam a invasão por um alude de lacraus em Kashã.
***
Havia outrora na Mesopotâmia - em épocas bem remotas - um rei chamado Schedad, que era senhor de Bagdá. Rico e poderoso como os antigos monarcas do Oriente, quis o rei Schedad ter a glória de possuir em sua capital um jardim tão belo e inebriante como o paraíso de Maomé e um antro tão feio e repugnante como o inferno do Maligno!
Mandou, pois, o grande monarca que se construísse em Bagdá um parque maravilhoso que fazia realmente lembrar, por seus encantos e belezas singulares, os jardins tão sonhados do céu.
Para rematar condignamente tão extravagantes projetos, resolveu o rei Schedad aproveitar uma gruta escura e profunda que havia perto da aldeia de Bakuka e nela construir um verdadeiro inferno.
Colocou ali juntamente com os instrumentos de tortura seres monstruosos, hienas e vampiros.
Um certo Hariri Saad, homem maldoso que exercia as funções de grão-vizir, querendo ferir a doentia vaidade do soberano, observou:
- O inferno cuja construção foi por vós imaginada, ó Príncipe dos Crentes!, é uma obra, na verdade, grandiosa! Falta-lhe entretanto uma coisa que o completaria...
- Que falta? - indagou o monarca.
- Faltam os escorpiões, o generoso califa! - tornou o grão-vizir. - Quem já teria visto, ó rei!, um inferno sem escorpiões?
Inferno sem escorpiões? Semelhante particularidade não acudia ao rei de Bagdá. Mas - dando crédito às palavras do ardiloso Hariri Saad - convenceu-se de que não podia haver um antro infernal sem que em seu chão rastejassem, como arma indispensável do mal, numerosos escorpiões de mortífero ferrão.
Sem mais delongas, ordenou o monarca ao inteligente Abu Haddad - mago da corte - que fosse com numerosos e possantes camelos, pelas montanhas e desertos, e trouxesse para Bagdá todos os escorpiões que encontrasse.
O mágico ouviu a ordem do rei e obedeceu. Partiu com uma grande caravana - oitenta e um camelos!, dizem os historiadores - e andou pela Arábia, pela Síria, pelo Egito e pela Pérsia a caçar e aprisionar lacraus venenosos, numa batida completa por entre pedras, ruínas e escombros de toda sorte.
Afinal, passados dez anos, quando Abu Haddad voltava da interior da Pérsia com o formidável carregamento de escorpiões, soube casualmente, ao chegar junto à cidade de Kashã, que o rei Schedad fora assassinado e que o famoso inferno de Bakuka os fanáticos haviam transformado num montão de ruínas.
E aquela infindável coleção de escorpiões venenosos? Tornara-se, então, inútil, completamente inútil! Abu Haddad - o mago - sentiu que de nada mais valia aquela encomenda extravagante do rei Shedad. E, revoltado com a impiedade do destino, que lhe inutilizara a fatigante tarefa de dez longos anos, resolveu soltar, ali mesmo, o carregamento de lacraus!
Abrindo um a um os pesados sacos que os oitenta e um camelos carregaram, deixou por terra, em liberdade, junto aos muros de Kashã, a medonha e imensa bicharada!
Desde então - segundo essa velha lenda - os escorpiões passaram a constituir a maior praga da cidade de Kashã, legado pernicioso de um rei extravagante e perverso.
("Lendas do Deserto")