
Um sábio historiador interroga Beremiz. O geômetra que não podia olhar para o céu.
Solucionado o primeiro caso com todas as suas minúcias, o segundo sábio foi convidado a interrogar Beremiz. Esse ulemá era um historiador famoso: lecionara durante vinte anos em Córdova e mais tarde, por questões políticas, transferira-se para o Cairo, onde passou a residir sob a proteção do califa. Era um homem baixo, e seu rosto bronzeado parecia emoldurado por uma barba elíptica.
Eis como o sábio historiador se dirigiu ao calculista:
- Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso! Enganam-se aqueles que apreciam o valor de um matemático pela maior ou menor habilidade com que efetua as operações e aplica as regras banais do cálculo! A meu ver, o verdadeiro geômetra é o que conhece, com absoluta segurança, o desenvolvimento e o progresso da Matemática através dos séculos. Estudar a História da Matemática é prestar homenagens aos gênios maravilhosos que enalteceram e dignificaram as antigas civilizações e que, pelo seu labor e pelo seu engenho, puderam desvendar alguns dos mistérios profundos da imensa Natureza, conseguindo, pela ciência, elevar e melhorar a miserável condição humana. Cumpre-nos ainda, pelas páginas da História, honrar os gloriosos antepassados que trabalharam para a formação da Matemática e apontar as obras que deixaram. Quero, pois, ó Calculista!, interrogar-vos sobre um fato interessante da História da Matemática : "Qual foi o geômetra célebre que se suicidou de desgosto por não poder olhar para o céu?".
Beremiz susteve-se instantes e exclamou de golpe:
- Foi Erastóstenes, matemático oriundo da Cirenaica e educado, a princípio, em Alexandria e, mais tarde, na Escola de Atenas, onde aprendeu as doutrinas de Platão!
E, completando a resposta, prosseguiu:
- Erastóstenes foi escolhido para dirigir a grande biblioteca da Universidade de Alexandria, cargo que exerceu até o termo de seus dias. Além de possuir invejáveis conhecimentos científicos e literários que o distinguiram entre os maiores sábios de seu tempo, era Erastóstenes poeta, orador, filósofo e - ainda mais - atleta completo. Basta dizer que mereceu o título excepcional de "pentatlos", conferido naquele tempo ao atleta que saísse vencedor nas cinco lutas dos jogos olímpicos.
A Grécia achava-se, nesse tempo, no período áureo de seu desenvolvimento científico e literário. Era a pátria dos aedos, poetas que declamavam, com acompanhamento de música, nas refeições e nas reuniões dos reis e dos chefes, os célebres poemas homéricos, longas narrações em verso das façanhas dos heróis, formando um conjunto de várias rapsódias em que os costumes, a língua e as crenças se descrevem com admirável simplicidade de expressão, justeza de detalhes e verdade de sentimentos.
Na Grécia brilhou a grande alma de Sócrates, que, tendo-se dedicado na mocidade aos estudos da Física e da Astronomia, sofreu mais tarde a influência do teísmo filosófico de Anaxágoras, criando a lei dominante de tôda a sua filosofia - o Bem, considerado como efeito essencial da inteligência e da ciência. Combatendo a falsa retórica e os sofistas que ensinavam a arte de raciocinar e de sustentar indiferentemente tôdas as opiniões, Sócrates tomou a moral como base da filosofia, encabeçando os seus preceitos com o célebre aforismo: "Conhece-te a ti mesmo", que se lia na frente do templo de Delios.
Não seria prolixidade dizer que entre os gregos de cultura e valor era o sábio Erastóstenes considerado como o homem extraordinário que jogava dardo, escrevia poemas, vencia os grandes corredores e resolvia problemas de Astronomia. Erastóstenes legou à posteridade várias obras. Ao rei Ptolomeu III, do Egito, apresentou uma tábua de números primos feita sobre uma prancha metálica, na qual os números múltiplos eram marcados por um pequeno furo. Deu-se, por isso, o nome de "Crivo de Erastóstenes" ao processo de que se utilizava o astrônomo grego para formar sua tábua. Em conseqüência de uma oftalmia adquirida nas margens do Nilo durante uma viagem, Erastóstenes ficou cego. Ele, que cultivava a Astronomia, achava-se impedido de olhar para o céu e de admirar a beleza incomparável do firmamento nas noites estreladas. A luz eterna de "suhel" jamais poderia vencer aquela nuvem negra que lhe encobria os olhos. Esmagado por tão grande desgraça e não podendo resistir aos desgostos que lhe causava a cegueira, o sábio e atleta suicidou-se, deixando-se morrer de fome!
- Bah! - exclamou o califa. - No meu fraco entender essa resposta foi mais completa do que a primeira. - E pousando a mão larga sobre o ombro do príncipe, ajuntou:
- Vamos ver, agora, se o terceiro argüidor conseguirá vencer o nosso calculista!
(“O Homem Que Calculava”)