
Enfim, o sonho
O trabalho era pesado. Todos tinham que acordar às 4 da manhã e trabalhar até o sol se pôr. Para piorar, estavam subnutridos devido às diferenças na alimentação. Não conseguiam acostumar-se à carne seca e ao bacalhau salgado, duros e difíceis de engolir. Não sabiam ainda que as carnes tinham de ficar imersas na água, para amolecer e perder o sal.
Os rendimentos eram minguados. Todo o dinheiro conseguido era tragado pelo armazém da fazenda, único lugar onde era possível comprar mantimentos. A dívida aumentava a cada dia: os artigos vendidos na fazenda custavam muito mais caro do que em outros locais.
Kame ajudava o marido no trabalho, mas descobriu que estava grávida de três meses - e era essa a razão dos fortes enjôos durante toda a viagem. Mesmo assim, não fraquejou. Todos os dias, com a barriga crescendo, acompanhava o marido na lavoura e se ocupava da lavagem das roupas e da alimentação do casal.
No dia 28 de novembro de 1908, Kame deu à luz a primeira nissei brasileira: Uto Miadaira. O primeiro parto em terras estranhas, só com a ajuda do marido, não a impediu de voltar ao trabalho em três dias. Precisavam juntar dinheiro para pagar as dívidas no armazém e sair daquela fazenda. Mas a conta só crescia e a situação só piorava. Em janeiro de 1909, restavam só 52 imigrantes na fazenda, que acabaram herdando a dívida dos 121 que haviam fugido.
A última esperança dos que ficaram era a colheita do feijão plantado no meio do cafezal. Mas os proprietários da fazenda confiscaram as 700 sacas que os imigrantes conseguiram colher. Exaltados e muito revoltados, foram tirar satisfações com os administradores da fazenda. E no dia 25 de janeiro de 1909, os trabalhadores japoneses da Fazenda Floresta receberam ordem de retirada por haverem causado “desagrado ao fazendeiro”.
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