A epopéia do imigrante

                                                       

  52 dias de viagem, e a chegada 

 

São Paulo - Era noite de 17 de junho de 1908. Uma quinta-feira gelada, com céu estrelado. Depois de 52 dias a bordo do navio Kasato-Maru, cerca de 800 japoneses estavam prestes a desembarcar no porto de Santos. Eram os primeiros imigrantes a chegar no Brasil. Olharam para terra firme e contemplaram um espetáculo inesperado: rojões subindo e explodindo nos céus, acompanhando dezenas de balões que voavam sem rumo, como sempre acontecia nas festas de São João. Comovidos, os imigrantes tiveram a ilusão de que o povo brasileiro promovia aquela festa como sinal de boas vindas.

Kame e Ushisuke Miadaira estavam ansiosos. Ouviram o aviso dado pelos tripulantes: “Ao raiar o dia, os senhores avistarão as montanhas do continente sul-americano.” Tinham de esperar o dia seguinte para o navio atracar no porto. Kame resolveu passar a noite preparando-se para o desembarque, a despeito dos fortes enjôos que a acompanharam por toda a viagem. Pediu para Ushisuke trazer a mala - na verdade, uma caixa de vime com algumas roupas, pó para escovar os dentes, um frasco de conservas, travesseirinhos feitos de bambu forrado, acolchoados, casacos contra o frio, pauzinhos para comer arroz.

Kame separou cuidadosamente os trajes ocidentais que costurara antes de partir: uma saia e blusa para si, calça e camisa para o marido. Chapéus para ambos. E um par de bandeiras para cada um, uma do Japão e outra do Brasil. Ela teve um pouco de dificuldade em confeccionar a bandeira brasileira. Eram muitas cores, estampas diferentes. Não bordou todas aquelas estrelinhas - muito difícil. Mas ficou feliz com o resultado, mesmo sem as estrelinhas e sem aquelas letrinhas estranhas que iam na faixa branca.

O navio atracou no cais de número 14 às 17 horas do dia 18 de junho. Era lua nova. Kame ficou feliz: “Um bom presságio. Lua nova, em terra nova...” Mais algumas horas e eles poderiam desembarcar. Voltou a pensar nas coisas que aconteceram desde que o casal decidiu depositar todas as suas esperanças nessa viagem. A vida na ilha de Okinawa ficava cada vez mais difícil. Não havia terra para plantar, nem espaço para criar galinhas ou porcos. Quando o marido chegou com aquele papel do governo, que falava sobre um país com fazendas enormes e milhares de pés de café, não pensou duas vezes. Haveria de ganhar muito dinheiro para voltar, comprar um pedaço de terra e cultivar suas próprias verduras.

O desembarque ocorreu somente na manhã seguinte. Kame e Ushisuke desceram do navio empunhando as bandeirinhas japonesas e brasileiras. O trem já aguardava para levá-los à Hospedaria do Imigrante, na cidade de São Paulo. A viagem durou mais de 3 horas. Chegaram no início da tarde. O jantar foi memorável: pão, sopa de bacalhau e batatinhas. Depois de quase dois meses em alto mar, foi ótimo comer alguma coisa em terra firme.

 

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