A epopéia do imigrante II

 

 

  Distribuição   

 

Durante uma semana, todos permaneceram na Hospedaria do Imigrante, sem ter muito o que fazer. Kame quis conhecer a cidade e, junto com outras mulheres, saiu para dar uma volta pelos arredores. Caía uma chuva fininha. Assim que saíram da hospedaria, chamaram a atenção das pessoas que passavam pela rua. Desacostumados com orientais, os passantes paravam e encaravam as mulheres japonesas com ar de espanto. Alguns chegavam mais perto e apertavam seus narizes largos e chatos. Como não sabiam falar o idioma, as mulheres limitavam-se a sorrir, mesmo contrariadas.

Kame decidiu que não sairia mais a passear pela cidade.

No dia 27 de junho, às 4 horas da manhã, começou a distribuição dos imigrantes para as respectivas fazendas. Kame e Ushisuke foram destinados à Fazenda Floresta, junto com outras 171 pessoas, agrupadas em 23 famílias. Partiram às 5 da manhã no trem especialmente fretado, em direção à cidade de Itu, no interior de São Paulo.

A viagem transcorreu sem maiores problemas. As portas dos vagões foram trancadas, para evitar que os imigrantes descessem nas estações e se perdessem. Mas isso não importava para os Miadaira, mais interessados em conversar com os companheiros de viagem, especulando como seria a tal Fazenda Floresta.

Ao chegar, foram recepcionados pelo proprietário e pelo administrador, que lhes ofereceram um jantar. Ao observarem o cardápio, ficaram extasiados: arroz e feijão, que maravilha! Mas foi um choque perceber que o feijão era salgado e aquele arroz tinha sido cozido com gordura e sal. Um horror para o paladar japonês, habituado ao feijão doce e ao arroz cozido somente na água, sem qualquer tipo de tempero...

Mas, como estavam com muita fome, comeram toda aquela comida estranha que, ainda por cima, tinha uns pedaços peludos de batata boiando no feijão. Passou-se muito tempo até descobrirem que o “inhame peludo” eram pedaços de toicinho com couro.

 

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