
O mal de que ela sofria não perdoava. Tudo que se podia fazer a respeito era paliativo. Lento, mas pertinaz, ia tomando conta do corpo dela...
Lembro-me de que tudo começou com um pequeno caroço na tireóide. No fim, já havia atingido o lado (região da costela), o mediastino e a coluna lombar.
A nossa vida transcorria entre nossa casa e o Hospital, para aplicação de rádio e quimioterapia. Aquilo tudo mexia com o seu organismo, dava-lhe náuseas e tonturas.
Um belo dia foi levada de emergência para o Hospital. Não sei se os médicos sentiram a situação, mas ela foi levada para o apartamento, onde nem foi medicada. – Afinal, que tipo de medicação poderia receber? Algo para dor? Ou para acalmá-la?
E ela clamava desesperada, não de dor – era como um anjo mau que se abatesse sobre ela!
Na mesma madrugada faleceu.
O corpo seria velado no Cemitério da Vila Alpina. Logo de manhãzinha começaram a chegar os nossos amigos – às dezenas e até centenas.
Lá pelas seis horas da tarde, eu me encontrava só com o seu corpo. Alguém falou:
- Se o senhor preferir, pode trancar o compartimento e ir para casa – tomar um banho, descansar um pouco.
Aproveitei a sua idéia e fui.
No dia imediato, estava ali novamente. Fui até o caixão para verificar não sei bem o quê – sei lá, se ela estava ali, se tinha se mexido...
Dali rumamos em cortejo para o Crematório da Vila Alpina, onde ela, conforme seu desejo, seria transformada em cinzas.
Na hora da cerimônia religiosa mais dezenas e dezenas de pessoas – outros amigos que não vieram no dia anterior.
Em seguida o corpo foi recolhido para posterior cremação.
De repente me lembrei: ela estava de peruca, visto que todo o seu cabelo havia caído. E a peruca não era dela, era emprestada.
- Pai – disse solícito um de meus filhos, – vou descer até a sala do crematório no andar inferior e tentar resgatar a peruca.
- Vá, meu filho. Tenha coragem.
Conseguiu, mas confidenciou-me que o corpo já estava cheirando mal.
Fomos para nossas casas, pois a cremação propriamente dita seria feita depois.
No sábado seguinte a família reuniu-se ali para receber a urna com as cinzas, que foram espalhadas ali mesmo, entre as árvores...