Enlace infeliz

 

Um inocente tem vinte e nove motivos para se julgar culpado – O rei Baribê recusa ouvir vinte e seis razões – Declarações que surpreendem o califa – parte o monarca para impedir um casamento indesejável

 

O rei Baribê, que tudo ouvira em silêncio, observou muito sério, franzindo a testa desconfiado:

- Não sei, ó Egípcio! Como interpretar tua estranhíssima atitude. A ser exata a narrativa que acabo de ouvir, isento estás de qualquer culpa, Pesa, por conseguinte, sobre ti uma condenação iníqua e absurda. O cádi que a proferiu fez-se desmerecedor de minha confiança e será destituído de suas funções. Ocorre-me, pois, perguntar: Por que não levantaste a mão direita quando foste interpelado com os outros detentos?

Tornou Nagib com a maior naturalidade:

- Bem sabia eu, ó Rei do Tempo! – que ao conservar os braços estendidos ao longo do corpo me incluía, voluntariamente, entre os criminosos confessos, se bem que me julgasse isento de culpa. E procedi desse modo (imitando, aliás, a atitude de meu amigo Nagib Noturno) por vinte e nove razões.

Espantou-se o monarca diante de tão inesperada declaração.

-  Vinte e nove razões! – repetiu pausadamente. - Pelo nome do profeta! -  é incrível que um inocente se confesse culpado e alegue, em abono do seu proceder, vinte e nove motivos. Interessa-me conhecer, uma a uma, essas vinte e nove extraordinárias causas.

- Escuto e obedeço – respondeu o jovem inclinando-se respeitoso diante do califa. – Vou enumerar e justificar todas as vinte e nove razões que me forçaram a agir desse modo.

E, num tom de quem divaga, começou à meia voz.

Primeira: - Tive o cuidado de observar que Nagib Noturno mantinha a mão direita para baixo, fazendo-se passar por culpado. Resolvi, por espírito de solidariedade e num impulso de amizade, imitá-lo.

Segunda:- Lembrei-me do estranho conselho que ouvira do dervixe no palácio do Xeque Kamil naquela noite de meu malogrado casamento. “Tua salvação, ó cairota, estará em tua mão direita. Não levantes nunca tua mão direita”.

Conjeturei fosse talvez de bom-aviso seguir o conselho do dervixe.

Terceira:- Precisamente hoje completo o último dia de minha reclusão. Amanha devo ser posto em liberdade. Dado que fosse reconhecida e proclamada a minha inocência, não tiraria dela maiores proveitos.

Deixei que outro detento, menos favorecido pela sorte, se beneficiasse com o sonho do nosso incomparável Emir!

O rei Baribê, num gesto de impaciência, fez calar o Egípcio.

- Pára! - ordenou com desbordante energia. - For Allah! Para! Contento-me com as três primeiras razões. Desisto das vinte e seis restantes...

E dirigindo-se ao vizir Chamseddin, muito atento ao seu lado, acrescentou seco e sentencioso:

- Voltemos imediatamente ao palácio. Determino se conceda liberdade a esses dois detentos. Ainda mais. O chefe de Polícia deverá prestar-me, com a máxima presteza, os seguintes informes:

1.° - Qual o paradeiro de Nedjma, filha do Xeque Kamil.

2.° - Se ainda se acham em Bagda as jovens Omalisã e Oadia.

3.° - Como ocorreu a morte do vizir Sayeg.

4.° - Onde se acha a menina Halcima, cuja beleza tanto impressionou o caçador Nagib.

5.° - Se vive em Bagdá algum chines corcunda.

Recomendo, igualmente, sejam conduzidos ao divã das audiências todas as pessoas nobres, humildes, caravaneiros ou sábios, cujos nomes hajam sido citados nas duas narrativas que acabamos de. ouvir,

O vizir Chamseddin respondeu:

- As vossas ordens, ó Rei, estão sob os meus olhos e no meu coração! Há, porém, entre os vossos quesitos, alguns a que poderei, desde já, responder, sem mesmo o valioso auxílio do nosso diligente chefe de Polícia.

São os que se referem a Nedjma e suas amigas. Oadia, várias vezes citada pelo Egípcio, é irmã da filha de meu tio (esposa). Há pouco mais de um ano casou-se com um rico mercador de Basra; reside, agora, nessa cidade e vive muito feliz com o marido. A sua companheira Omalisã é, hoje, esposa de um príncipe do Yemen. Segundo ouvi dizer, mora em Damasco, na Síria.

- E Nedjma? - indagou o rei.

- Quanto a Nedjma - prosseguiu afavelmente o vizir - soube que tem rejeitado todos os noivos que lhe aparecem. Há poucas semanas, porém, atendendo a insistentes pedidos do pai, já muito doente, resolveu casar-se com um mercador de pérolas chamado El-Hadj Abd-el-Salib.

- E já se casou? - inquiriu, sofregamente, o monarca.

Tornou o vizir Chamseddin:-

- A nossa Vida, o Rei Magnânimo!, é pontilhada de coincidências incríveis! Quis o Destino - em seus insondáveis desígnios - que o casamento da encantadora Nedjma com o peroleiro fosse fixado, precisamente, para hoje!

Nagib, o Egípcio, que ouvira sob o espinho de indescritível ansiedade as palavras do vizir, voltou-se para o califa e disse-lhe, insofrido!

- Apelo, ó Emir dos Crentes! - para a vossa Justiça e Bondade! Não deveis permitir a realização desse casamento desigual, que representa para Nedjma o maior dos sacrifícios. É a mim e não ao mercador Salib que ela ama. É por mim, unicamente por mim, que vem esperando todo esse tempo!

Respondeu o rei:

- Partamos para a casa do Xeque Kamil. É possível que ainda cheguemos a tempo de elucidar esse mistério e evitar um enlace infeliz!

Achavam-se prontos e arreados junto à entrada do presídio cerca de trinta possantes cavalos. O califa, seguido de seu vizir, dos dois Nagibes e de aparatosa escolta, partiu a toda pressa para o palácio em que vivia o Xeque Kamil, pai de Nedjma.

 

("Aventuras do Rei Baribê")

 

continua ("Preparativos para o casamento")

 

voltar

home