A empregada

 

 

John Longfellow, um cavalheiro inglês do início do século, era solteirão.

Lembremo-nos de que naquele tempo as diferenças de classe social eram enormes, especialmente na sociedade inglesa, a mais democrática das sociedades em teoria, e a mais hierárquica das sociedades na prática. A mistura de pessoas de classes diferentes era impensável.

O respeitável senhor John L. precisava de uma empregada que limpasse seu apartamento de solteiro e pôs anúncio num jornal. Várias candidatas apareceram, mas nenhuma delas o agradou - exceto uma, a srta. Furlong, uma solteirona extremamente composta, respeitosa, e de modos muito profissionais.

Assim, de manhã, Miss Furlong, uma mulher de meia idade, aí entre seus 48 a 55 anos, entrava no quarto de Mr. Longfellow, abria as cortinas, permitindo que a luz entrasse, e trazia numa bandeja o café da manhã do senhor Longfellow. Sua atitude era respeitosa, e seu semblante impassível. Servia-lhe o café da manhã e, com uma mesura, se retirava, em completo silêncio.

Naquele tempo, como já enfatizamos, a distinção de classes sociais era um fato. Um patrão jamais se misturava com uma empregada. Mas uma noite - era a folga da Srta. Furlong. Ela, naquele dia - e noite, seria livre para ir e vir. No dia anterior à folga, entretanto, o senhor Longfellow, sentindo-se extremamente sozinho, perguntou a ela, quebrando todas as regras sociais – e só tendo vivido na Inglaterra tem-se idéia do quão sério é quebrar, naquele país, as regras sociais:

- A senhorita aceitaria sair comigo amanhã à noite?

Lá estava o senhor Longfellow na situação miserável que a natureza reservou aos homens, a condição eterna de suplicantes (às mulheres cabe a situação, muito mais confortável, de dizer sim ou não). Para seu gáudio, entretanto, a Srta. Furlong respondeu gentilmente: "Certamente que sim, senhor".

Um eflúvio de calor e contentamento percorreu o corpo do senhor Longfellow. E, na noite seguinte, lá foram os dois para o pub, e depois para um lugar dançante, e dançaram, cada vez mais íntimos, até alta madrugada.

Voltaram para casa e, ao subirem a escada o senhor Longfellow, tendo tomado alguns drinques - na verdade, muitos drinques - não resistiu. Abraçou a Srta. Furlong demorada e apaixonadamente, e em pouco estavam se beijando na boca. E, ato contínuo, moveram-se para a cama da empregada, que ficava logo no alto da escadaria.

Descobriram, então, algo que desde o princípio os unira - afinidades de pele, de cheiro, de atração, de carne, de tudo - e amaram-se à moda inglesa, sem grandes paixões mas com imenso conforto, e findo o ato o senhor Longfellow, ainda bêbado, esgueirou-se para o seu quarto. Ao chegar à cama, antes de deitar-se, bateu voluntariamente a cabeça na parede, repetindo: “Que besteira, John, que besteira você acaba de fazer, que grande besteira!”.

De qualquer modo, dormiu, acossado embora por pesadelos horríveis pois como se sabe, quando as mulheres resolvem cobrar pelo amor, as prostitutas tornam-se incrivelmente baratas. Mil vezes pagar uma fortuna a uma prostituta a enfrentar a cobrança de uma mulher que se julga preterida.

Na manhã seguinte às oito horas da manhã entretanto, a Srta. Furlong adentrou o quarto, rigorosamente uniformizada, abriu as persianas e cortinas como sempre, permitindo que a luz matinal invadisse o quarto e perguntou sem um pingo de emoção na voz, como sempre fazia:

- Mr. Longfellow, o senhor prefere que eu sirva o café aqui na cama ou prefere descer para a mesa?

Olhando a figura totalmente profissional e neutra da empregada, o senhor Longfellow, inteligente como era, entendeu com imensa satisfação íntima que era um homem total, imensa e completamente feliz.

 

Somerset Mogham

 

 

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