
Ele embriagava pavões para acabar com as serpentes
Das Mil Histórias Sem Fim... é esta a décima nona. Lida a décima nona restam apenas novecentas e oitenta e uma...
Sou natural da Índia. Trabalhei durante toda minha vida nas terras do rajá Naradej, governador da província de Rã-Na-pal. Esse príncipe conservara em suas matas mais de quinhentos elefantes sagrados. Quando acontecia morrer um desses elefantes, o príncipe Naradej determinava que o corpo do monstruoso paquiderme fosse cuidadosamente embalsamado. Cabia-me, então, executar com habilidade essa piedosa tarefa. A minha profissão é, portanto, muito simples e nobre: "empalhador de elefantes sagrados".
Eu morava numa casa pequena e modesta, construída no meio da mata sombria em que viviam os elefantes. Aquelas terras eram infestadas de perigosas serpentes; rara a semana em que não se perdia um homem picado por uma delas. Aquele flagelo parecia irremediável, pois a nossa religião não permite matar um animal seja este embora uma peçonhenta cobra.
Que fiz então? Sem que o rajá soubesse, iniciei uma grande criação de pavões; para evitar que os pavões se afastassem dos arredores da casa usei de um estratagema muito curioso. A partir dos primeiros dias habituei os pavões ao uso do ópio que é, como todos sabem, um entorpecente perigoso.
Todas as tardes cada pavão recebia em minha casa, diante da porta que abria para o terreiro, uma certa dose de ópio e ali ficava, durante a noite, num sono de embriaguez. Pela manhã, os pavões partiam pela mata em busca de seu manjar predileto - as serpentes.
Quando um pavão encontra uma cobra entra logo em luta. Os botes e assaltos do ofídio são inúteis; a plumagem forte e espessa que reveste o corpo do pavão não permite que essa ave possa ser mordida pela serpente. O pavão, depois de se divertir durante alguns minutos com sua vítima, mata-a com duas ou três violentas bicadas, transformando-a a seguir numa apetitosa iguaria. Com auxílio dos pavões "viciados" eu fui pouco a pouco exterminando as serpentes que viviam nos arredores de minha casa.
Um dia, porém, o rajá foi informado de que eu embriagava os pavões, dando-lhes ópio todas as tardes. O meu procedimento foi tido como "infame", pois contrariava todos os preceitos religiosos do povo. Por esse motivo fui despedido do emprego e expulso das terras.
Depois de muito peregrinar pelo mundo, cheguei a este país onde esperava arrumar colocação. Sinto-me, todavia, embaraçado, pois julgo que dificilmente encontrarei aqui elefantes sagrados que exijam as minhas habilidades de empalhador.
- Não resta dúvida - concordou o rei – a vossa singular especialidade não encontra facilmente aplicação dentro das fronteiras de meu país. Farei, todavia, o possível para auxiliar-vos.
Disse então o hindu:
- Se a minha profissão é original, rara e estranha, mais rara, estranha e original é a profissão exercida por este camarada.
E apontou para o terceiro forasteiro que se mantivera de pé, em atitude respeitosa, a poucos passos de distância.
- Por Allah! - bradou o rei. - Pelo sagrado templo de Meca! Será possível que exista em algum recanto do mundo profissão mais esquisita do que aquela que exerce um empalhador de elefantes sagrados?
E, dirigindo-se ao estrangeiro, disse-lhe:
- Aproxima-te, meu amigo! Quero saber qual é a profissão maravilhosamente rara que exercias em tua terra e por que vieste parar agora em nosso país!
O terceiro viajante, interpelado pelo sultão, assim falou:
- Crime seria iludir-vos com fantasias enganadoras ou com exageros mentirosos. A profissão que exerço e na qual (digo-o ferindo, embora, a minha natural modéstia) sou de excepcional eficiência, não é certamente das mais raras. Tenho encontrado, ao percorrer os caminhos de Allah, homens que exercem atividades muito mais estranhas.
Em Heif, no sul da Arábia, conheci um ancião que amealhava bens invejáveis domesticando lagartixas e proporcionando, com esses animaizinhos, sobre grandes bandejas de prata, espetáculos que muito distraíam os curiosos. Assisti, por exemplo, uma luta simulada entre duas lagartixas que me deixou encantado.
Esse mágico das lagartixas chamava-se El-Magdisi e era tão avarento que passou a adotar o apelido de Mag para economizar tinta nas assinaturas do nome. Em Damasco, na Síria, fiz boa amizade com um calculista cujo ganha-pão consistia em fazer cálculos inúteis que não deviam na verdade interessar a pessoa alguma. Quantas escamas tem um certo peixe? Quantos passos, em média, uma pessoa dá por dia? Qual é o número cujo quadrado é formado por dez algarismos e todos desiguais: 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9? Quantas vezes a letra "alef" aparece na 1ª surata do Alcorão? Havia centenas de outros problemas sem a menor significação que o calculista vendia por bom preço aos damascenos mais ilustrados.
- Todas essas considerações – interrompeu delicadamente o sultão - parecem-me dignas de atenção dos estudiosos. No momento, porém, não me interessam e não disponho, infelizmente, de tempo suficiente para ouvi-las.
- Quero que me descrevas a profissão que exerces e que teu companheiro reputa original e surpreendente.
O terceiro viajante, interpelado desse modo pelo sultão, narrou o seguinte:
continua ("O afinador de cigarras")
(“Mil Histórias Sem Fim”)