
(Córdoba, Espanha)
O silencio é preferível à loquacidade. Morre do mal do silêncio, mas evita o perigo da loquacidade. Saber calar é virtude cem vezes mais rara do que saber falar.
Rabi Azai, o sábio, viajava pelo Irã em companhia de vários discípulos. Em certo momento um mercador persa que vinha na caravana, tomado de cólera por um motivo fútil, entrou a vociferar contra os israelitas.
Um dos discípulos disse ao mestre:
- Vamos, ó rabi!, responde com energia a esse homem. Insulta-o por nós. Ele fala em valaat e tu conheces muito bem esse dialeto!
Retorquiu o douto Azai:
Sim, meu filho, aprendi a falar o dori, o galani e o valaat, mas aprendi também a ficar calado em valaat, em dori e em galani. É o que vou fazer - guardar silêncio em três dialetos persas. E acrescentou imperturbável, anediando as longas barbas brancas que lhe caíam sobre o peito:
- Seria insensatez trocar injúrias com um exaltado que deblatera como um louco e que nem sabe o que está dizendo.
Pelo silêncio podes ter um desgosto, mas a loquacidade te trará mil e um arrependimentos. Uma palavra irrefletida é, amiúde, mais perigosa do que um passo em falso. Guarda a tua língua, como guarda o avarento a sua riqueza. A natureza, que nos deu um só órgão para falar, forneceu-nos dois para ouvir. A inferência é óbvia. Forçoso é concluir que havemos de ouvir duas vezes e falar uma só.
***
Conta-se que um árabe ingressou numa comitiva onde todos eram barulhentos e discutidores e guardou longo silêncio. Um dos companheiros segredou-lhe:
- Consideram-te como um dos mais nobres da tua tribo. Sei agora o motivo. És silencioso e discreto.
Replicou o islamita:
- Meu irmão, o nosso quinhão de ouvidos pertence-nos. As palavras afoitas e levianas que proferimos pertencem aos outros.
A palavra que ficou pendente, pelo silêncio, em nossos lábios, é vassalo pronto a servir-nos; a que proferimos, leviana e inoportunamente, é algoz atento em escravizar-nos.
O sábio e judicioso Simeão, filho do rabi Gamaliel, doutrinava:
- Passei a vida entre sábios e nada achei melhor do que o silêncio. O essencial não é falar, é fazer.
"E quem fala demais abre, em sua vida portas e janelas para o pecado". (Aboth, 1:17).
Ainda no Talmude podemos sublinhar esta sentença:
"Quando falares, fala pouco, pois quanto menor for o número de palavras tanto menos errarás".
E no Livro de Israel figura também este aviso ditado pela Prudência:
"Quando falares à noite, abaixa a voz; e, quando falares de dia, olha primeiro à roda de ti".
Se a palavra vale uma "sela" (moeda), o silencio valerá duas.
As moedas mais ambicionadas são, precisamente, as que encerram, em pequeno volume e diminuto peso, grande valor. Assim, a força e a beleza de um discurso consistem no exprimirmos, em poucas palavras, verdades profundas e conceitos magistrais.
O "Tzartkover" (morto em 1903) deixou de pregar por largo espaço. Interrogado sobre isso respondeu: "Há setenta maneiras de rezar a Torá: uma delas é o silencio!".
("Lendas do Povo de Deus")