O elogio da Matemática

 

 

Aguardando o do emissário do califa. As bailarinas gêmeas. Como Beremiz reconheceu Iclímia e Tabessã. O elogio dos teóricos e sonhadores, feito por Beremiz. O rei proclama a vitória da Teoria sobre o imediatismo grosseiro.

 

Logo que o Xeque Nuredin Zarur - o emissário do rei - partiu em busca do calígrafo que desenhara as 32 legendas do "divã", deram entrada na magnífica sala do trono cinco músicos egípcios que executaram com grande sentimento as mais ternas canções e melodias árabes. Enquanto os músicos faziam vibrar seus alaúdes, harpas, cítaras e flautas, duas graciosas bailarinas djalicianas, para maior deslumbramento de todos, dançavam sobre vasto tablado de forma circular. Era de causar espanto a semelhança que se observava entre as duas jovens escravas. Tinham ambas o mesmo talhe esbelto, a mesma face morena, os mesmos olhos pintados de col negro; ostentavam brincos, pulseiras e colares exatamente iguais. E, para completar a confusão, apresentavam-se com trajes em que não se percebia a menor diferença.

Em dado momento o califa, que parecia de bom-humor, dirigiu-se a Beremiz a quem disse:

- Que achas, ó Calculista, das minhas lindas bailarinas? Já reparaste, com certeza, que são parecidíssimas. Uma delas chama-se Iclímia; tem a outra o mavioso nome de Tabessã. São gêmeas e valem um tesouro. Não encontrei, até hoje, quem fosse capaz de distinguir, com segurança, uma da outra, quando elas reaparecem no tablado, depois da dança. Inclímia (repara bem!) é a que se acha agora à direita; Tabessã, à esquerda, junto à coluna, dirige-nos, neste momento, seu melhor sorriso!

- Confesso, ó Xeque do Islã! (3) - respondeu Beremiz - que as vossas bailarinas são realmente irresistíveis. Louvado seja Allah, o único, que criou a Beleza para com ela modelar as sedutoras formas femininas. Parece-me, entretanto, - ponderou o calculista - relativamente fácil distinguir-se Iclímia de sua irmã Tabessã. Basta reparar na feitura dos trajes de cada uma!

- Como assim? - atalhou o sultão. - Pelos trajes não se poderá descobrir a menor dessemelhança, pois determinei que ambas usassem véus, blusas e mahzmas rigorosamente iguais!

- Peço perdão, ó Rei generoso! - contraveio Beremiz - mas as costureiras não acataram com o devido cuidado a vossa ordem. Verifico que a "mahzma" de Inclímia tem na barra 312 franjas, ao passo que na de Tabessã só cheguei a contar 309 franjas. Essa diferença de 3 no número total das franjas é suficiente para evitar qualquer confusão entre as duas irmãs gêmeas!

Ao ouvir tais palavras o califa bateu palmas, fez parar imediatamente o bailado e determinou que um haquim fosse contar, uma por uma, todas as franjas que apareciam nos saiotes das bailarinas.

O resultado veio confirmar o cálculo de Beremiz: Inclímia tinha no vestido 312 franjas e Tabessã apenas 309!

- Mac Allah! - exclamou o califa. - O xeque Iezid, apesar de poeta, não exagerou. Esse calculista Beremiz é realmente prodigioso! Contou todas as franjas dos saiotes enquanto as bailarinas volteavam rapidamente sobre o tablado.

A inveja quando se apodera de um homem abre em sua alma caminho a todos os sentimentos desprezíveis e torpes.

Havia na corte de Al-Motacém um vizir chamado Nehum Ibn-Nahum, tipo invejoso e mau. Vendo crescer perante o califa o prestígio de Beremiz, como onda de pó erguida pelo simum, aguilhoado pelo despeito deliberou embaraçar o meu talentoso amigo e colocá-lo em situação ridícula e falsa. Assim foi que se aproximou do rei e disse:

 

— Acabo de observar, ó Emir dos Crentes!, que o calculista persa, nosso hóspede desta tarde, é exímio na contagem de elementos ou figuras de uma coleção. Contou as quinhentas e tantas palavras escritas na parede do salão, citou dois números amigos e acabou por contar, uma por uma, as franjas dos saiotes das lindas bailarinas.

Mal servidos ficaríamos nós se os nossos matemáticos se dispusessem a cuidar de coisas tão pueris e sem utilidade prática de espécie alguma. Realmente! Que nos adianta saber se há, nos versos que nos enlevam, 220 ou 284 palavras e se esses números são amigos ou não! A preocupação de quantos admiram um poeta não é contar as letras dos versos ou calcular o número de palavras pretas ou vermelhas de um poema. Tampouco nos interessa saber se no vestido desta bela e graciosa bailarina há 312, 309 ou 1000 franjas. Tudo isso é ridículo e de mui escasso interesse para os homens de sentimentos que cultivam a Beleza e a Arte.

Interessa-nos, pois, ver esse calculista aplicar as teorias (que diz possuir) na solução de problemas de serventia real, isto é, problemas que se relacionem com as necessidades e os reclamos da vida corrente!

- Não deixa de parecer, até certo ponto, judiciosa - replicou o rei - a censura feita pelo vizir Nahum Ibn-Nahum. Um esclarecimento sobre o caso torna-se indispensável. Fala, pois! Tua palavra poderá orientar a opinião dos que aqui se acham!

- Os doutores e ulemás, ó Rei dos Árabes! - começou Beremiz - não ignoram que a Matemática surgiu com o despertar da alma humana; mas não surgiu com fins utilitários. Foi a ânsia de resolver o mistério do Universo, diante do qual o homem é simples grão de areia, que lhe deu o primeiro impulso. O seu verdadeiro desenvolvimento resultou, antes de tudo, do esforço em penetrar e compreender o Infinito. E ainda hoje, depois de havermos passado séculos a tentar em vão afastar o espesso velário, ainda hoje é a busca do Infinito que nos leva para diante. O progresso material dos homens depende das pesquisas abstratas ou científicas do presente, e será aos homens de ciência que trabalham para fins puramente científicos, sem nenhum intuito de aplicação de suas doutrinas, que a humanidade ficará devedora nos tempos futuros. Quando o matemático efetua seus cálculos ou procura novas relações entre os números, não busca a verdade para fins utilitários. Cultivar a ciência pela utilidade prática, imediata, é desvirtuar a alma da própria ciência!

Privilégio grande do matemático é essa ligação íntima e misteriosa entre o seu sonho, que fora dele mesmo quase não interessa a ninguém, e as explicações práticas da ciência que apaixonam as multidões e às quais ele fica aparentemente alheio. Que esse acordo entre as especulações matemáticas e a vida prática se explique por meio de argumentos metafísicos ou de teorias biológicas, não importa; o fato é que essa ligação existe e a História outra coisa não tem feito senão confirmá-la! Nas lucubrações mais áridas e abstratas, o matemático trabalha convencido de que o seu trabalho hoje ou amanhã será útil aos seus semelhantes. Essa certeza da profunda utilidade de sua obra permite ao matemático entregar-se, sem reserva, sem remorso, aos prazeres da imaginação criadora, não tendo em vista mais do que o seu próprio ideal de beleza e de verdade.

A teoria estudada hoje terá aplicações no futuro? Quem poderá esclarecer esse enigma na sua projeção através dos séculos? Quem poderá da equação do presente resolver a grande incógnita dos tempos vindouros? Só Allah sabe a verdade! É bem possível que as investigações teóricas de hoje forneçam, dentro de mil ou dois mil anos, recursos preciosos para a prática.

É preciso ainda não esquecer que a Matemática, além do objetivo de resolver problemas, calcular áreas e medir volumes, tem finalidades muito mais elevadas.

Por ter alto valor no desenvolvimento da inteligência e do raciocínio, é a Matemática um dos caminhos mais seguros por onde podemos levar o homem a sentir o poder do pensamento, a mágoa do espírito.

O estudo da Matemática contribui, certamente, por si mesmo, para uma boa formação espiritual: antes de tudo, exercita singularmente a atenção e, desse modo, desenvolve, concomitantemente, a vontade e a inteligência; habitua a refletir sobre um certo objeto que nos ocupa os sentidos, a observá-lo sob todos os seus aspectos e em todas as suas proximidades, aproximá-lo de outros objetos análogos, a apreender vínculos tênues e ocultos, a seguir, enfim, extensa cadeia de deduções. Dá hábitos de paciência, precisão e de ordem; inicia o espírito nas figuras da Lógica; fornece-lhe modelos incomparáveis de rigor, eleva-o e encanta-o pela contemplação de vastas teorias magnificamente ordenadas e resplendentes de clareza.

A Matemática é, enfim, uma das verdades eternas e, como tal, produz a elevação do espírito - a mesma elevação que sentimos ao contemplar os grandes espetáculos da Natureza, através dos quais sentimos a presença de Deus, Eterno e Onipotente! Há, pois, ó ilustre vizir Nahum Ibn-Nahum, como já disse, um pequeno erro de vossa parte. Conto os versos de um poema, calculo a altura de uma estrela, avalio o número de franjas, meço a área de um país, ou a força de uma torrente - aplico, enfim, fórmulas algébricas e princípios geométricos - sem preocupar-me com os louros que possa tirar de meus cálculos e estudos! Sem o sonho e a fantasia a ciência se abastarda. É ciência morta! Uassalã!

As palavras eloqüentes de Beremiz impressionaram profundamente os nobres e ulemás que rodeavam o trono.

O rei aproximou-se do calculista, ergueu-lhe a mão direita e exclamou com decidida autoridade:

- A teoria do cientista sonhador venceu e vencerá sempre o imediatismo grosseiro do ambicioso sem ideal filosófico!

Ao ouvir tal sentença, ditada pela justiça e pela razão, o rancoroso Nahum Ibn-Nahum inclinou-se, dirigiu um "salã" ao rei, e sem dizer palavra retirou-se cabisbaixo do divã das audiências.

 

("O Homem Que Calculava")

 

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