
Walcyr Carrasco
Um pessoal está montando uma peça infantil, de minha autoria. Convido o elenco para jantar. Faço a todos a pergunta essencial:
– Tem alguma coisa que você não come?
– Camarão nunca, senão minha garganta fecha e morro – diz Maurício.
Não pretendo assassinar o produtor – ao menos antes da estréia. Elimino os crustáceos.
– Tudo, menos carne vermelha – revela Bia, linda atriz de pele alva.
Quase me decido a servir uma travessa de alface sem tempero.
– Que tal nhoque com polpettas? – propõe Débora, minha secretária do lar.
– Bote só molho de tomate! – arrisco.
Por fim, resolvemos servir parte com molho de tomate, parte com as almôndegas de carne. São quinze pessoas. Minha experiência é pouca. Qual a quantidade de comida ideal? Um amigo explica:
– São 100 gramas por pessoa.
Outro avisa em voz baixa:
– Não caia nessa! Quando ele dá jantar, todo mundo come um sanduíche primeiro!
Uma amiga do Rio de Janeiro vem se hospedar em casa. Acordo no dia seguinte com sua voz ao telefone:
– Sim, ele está dando uma festa! Você vem?.
Arregalo os olhos. Ela avisa, feliz:
– O Charles vem com mais quatro pessoas, não é o máximo?
Corro para a cozinha. Débora amassa quilos de batata cozida. Conto os garfos. Não dá. Só se comerem por turnos! Acabo emprestando do vizinho. O jeito é convidá-lo também. Mais uma boca! Observo, desesperançado, a travessa de nhoque. Não haverá comida suficiente. Disparo até o supermercado.
A idéia é comprar uma tábua de frios e pães, muitos pães, para encher o bucho dos incautos antes de servir o prato principal.
– A tábua é para quando? – pergunta a mocinha.
– Para agora, ué!
Ela revira os olhos, angustiada. Boto dez bisnagas no carrinho, pães de lingüiça, de escarola... Quando a tábua de frios está pronta, vou ao caixa. Distraído, pego a sacolinha e viro a tábua para baixo. Os frios ficam uma maçaroca. Dá vontade de chorar.
Em casa ajeito como posso. Descubro que a sobremesa desmoronou.
– Fiz duas receitas de uma vez para adiantar. Não deu certo!
Tenho vontade de enfiar a cabeça da secretária no forno! Ela começa tudo de novo.
Corro ao chuveiro. Ouço vozes. Os primeiros convidados chegaram. Na hora! Ih! A casa não está pronta! Sorrio. Enquanto a incansável Débora varre, tento disfarçar.
– Chegamos cedo demais? – pergunta a atriz.
– Oh, não... É só um toque final! – digo, enquanto as nuvens de pó se espalham.
Tremo: a comida não vai dar. Tomara que falte alguém.
Que nada! Outros amigos de minha hóspede carioca aparecem de mala, vindos diretamente do aeroporto.
– Não podíamos faltar a sua festa! – diz Lilian.
– Oh, quanto prazer! – murmuro, apavorado.
Os convidados se atiram sobre os frios.
Vem o nhoque. Os pratos se enchem. Vem mais nhoque. Repetem. E repetem!
– Que delícia! – murmuram.
Nem tenho coragem de comer, de medo de que falte! Depois, a sobremesa.
– Ai, eu não devia comer, porque estou gorda! – grita Yara no segundo pedaço.
As taças se enchem. Brindamos. Todos ficam até a madrugada. Sozinhos, eu e minha hóspede catamos os copos. Finalmente, experimento a sobremesa!
No dia seguinte a avaliação: sobraram frios. E nhoque, muito nhoque! Estou comendo frios com nhoque há dez dias, sem perspectiva de acabar.
O jantar foi um sucesso. Mas ainda vou descobrir: qual a quantidade certa de comida?!
(Veja São Paulo - 22/09/2004)