E quanto às mulheres ...

 

  Seus corpos ressuscitarão mantendo-se no seu sexo?   

 

  

Alguns, baseados nestas palavras: 

“Até que cheguemos todos à unidade da fé, ao homem perfeito, à medida da plenitude da idade de Cristo” (Efésios 4:13).

 

e nestas outras: 

“Conformes à imagem do Filho de Deus” (Romanos 8:29),

 

não acreditam que as mulheres hão de ressuscitar com o sexo feminino, mas todas no sexo masculino, porque Deus fez apenas o homem de barro e, à mulher, tirou-a do homem.

Mas a mim parece-me que são mais judiciosos os que não duvidam que ambos os sexos hão de ressuscitar. É que, lá no Alto, não haverá já a paixão (libido) que é a causa de toda a perturbação. Realmente, homem e mulher, antes de pecarem, estavam nus e nem por isso se sentiam perturbados. Desses corpos serão extirpados os vícios e será conservada a natureza.

O sexo feminino, porém, não é vício, mas natureza, embora, na verdade, doravante liberta do coito e do parto; subsistirão, porém, os órgãos femininos, não agora acomodados ao antigo uso, mas a uma nova beleza com que já não será aliciada a concupiscência, que se anulará, dos que para ela reparam, mas com que serão louvadas a sabedoria e a clemência de Deus que fez o que não era e libertou da corrupção o que fez. Que, na verdade, no princípio do gênero humano, se formou a mulher com uma costela tirada do lado do homem adormecido - é um fato com que convinha fossem profetizados então Cristo e a Igreja. Na verdade, este sono do varão significava a morte de Cristo, cujo lado, quando estava inanimado ainda suspenso da cruz, foi atravessado pela lança, e dele saiu sangue e água - que, como sabemos, são símbolos dos sacramentos com que se edifica a Igreja. Foi precisamente desta palavra que se serviu a Escritura - lendo-se nela, não a palavra formou nem a palavra modelou, mas antes:

 

Edificou-a (à costela) em mulher (Gênesis 2:22);

 

é por isso que o Apóstolo diz “a edificação do corpo de Cristo que é a Igreja”. Tal como o varão, a mulher é, portanto, uma criatura de Deus; se ela foi formada à custa do homem, foi para pôr em destaque a unidade; e quanto à maneira como foi formada, figura ela, como já se disse, Cristo e a Igreja. Portanto, quem instituiu os dois sexos, os dois restabelecerá. Por fim, o próprio Jesus, a quem os Saduceus, que negavam a ressurreição, perguntaram de qual dos sete irmãos seria a mulher que eles, uns após outros, tinham desposado, pois a cada um pertencia, como a lei preceituava, perpetuar a descendência do irmão falecido, respondeu: 

“Estais enganados porque não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus” Mateus 22:29);

e embora fosse ocasião para dizer:

 

- Essa de quem me falais será também ela um varão e não uma mulher - não disse isto, mas disse antes: 

“Pois na ressurreição nem elas nem eles casarão, mas serão como os anjos de Deus no Céu” (Mateus 22:30);

 

na verdade, iguais aos anjos na imortalidade e na felicidade, mas não na carne - nem também na ressurreição, de que não tiveram necessidade os anjos porque não puderam morrer. O Senhor negou, portanto, que na ressurreição haverá núpcias mas não negou que haverá mulheres e precisamente quando se tratava de tal questão; tê-lo-ia resolvido mais rápida e facilmente negando que então houvesse sexo feminino se soubesse que ele não existiria lá. Mas, ao contrário, confirmou que (o sexo) havia de subsistir ao dizer, referindo-se às mulheres: 

Nem elas casarão (Mateus 22:30),

 

e, referindo-se aos homens: 

Nem eles casarão (Mateus 22:30).

 

Haverá lá, portanto, casados e casadas de cá: mas lá é que não voltarão a casar. 

 

(“A Cidade de Deus”)

 

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