
Ivan Angelo
Metrópoles têm um estilo. Joaquim Nabuco disse (falando de escrever, não de cidades) que "o estilo é uma questão de maneiras". Pois a maneira de ser da grande cidade é a que as pessoas que moram nela criaram. Mais limpa ou mais cosmopolita, menos barulhenta ou menos apressada – os moradores vão moldando, no decorrer de décadas, de séculos, o perfil da sua metrópole. E um dia ela é a cara deles ou eles a cara dela. Nada mais "paulistano" do que a cidade dos paulistanos.
Há limites no mapa e no tempo para essa representação. A Paris de estilo parisiense não é toda a cidade metropolitana; Milão não é o seu entorno; o estilo Nova York é Manhattan e, vá lá, o Brooklyn. A São Paulo de estilo paulistano é a daquele grande miolo dos bairros de até 1960, não a da ocupação desordenada que veio depois. Olhos de fora percebem nos naturais desse espaço um jeito próprio de andar, vestir, maquiar, comer, beber, trabalhar, consumir, ajudar, arrumar o comércio e os serviços, construir, morar, decorar, receber convidados, dirigir carro, falar, conviver, produzir, fazer festa.
Algumas cidades podem perder seu estilo, por circunstâncias, como o Rio de Janeiro. Lá, tudo funcionava para que moradores e visitantes desfrutassem o melhor da vida. Uma classe ganhando dinheiro e gastando-o em boa camaradagem com os que a serviam e divertiam; outra administrando o país, o estado e o município com ares de proprietária, herdados do reinado; outra acomodada ali no meio-de-campo, tocando a vida; e os pobres recebendo o mínimo sem muita humilhação porque variados jeitinhos amenizavam as relações. Isso foi antes de Brasília e dos tiroteios.
Estive em Nova York no mês passado e mais de uma vez me peguei observando detalhes com olhos acostumados a São Paulo. Não pensando em melhor ou pior, mas em maneiras, modos de ser.
As senhoras mais distintas vão ao culto dominical de chapéu, cabelo cuidado, anéis, o melhor vestido. Mesmo as mais pobres. Deus aqui é menos rigoroso.
É chocante a quantidade de gordos. Maior entre os negros, maior ainda entre os mais jovens. A motorista de táxi diz que "eles" adoram as gordas, "dão anéis, brilhantes, se jogam a seus pés". E elas escolhem, desprezam. Quando estive lá pela primeira vez, há 37 anos, não era assim. Tem algum problema aí.
Reservas em restaurantes funcionam. Você telefona, marca hora, seu lugar está lá guardadinho.
Não se vêem filas nos guichês dos bancos. Pagamentos seguem pela internet ou em cheques pelo correio. Aqui muita gente não tem nem cheque.
Moradores de rua, camelôs, dogões: olha eles aí. Pequenas diferenças: os sem-teto não podem beber álcool nas ruas nem puxam carroças; os camelôs especializaram-se no fake: falsas bolsas de grifes européias, falsos perfumes europeus e pashminas falsas; os hot dogs são vendidos por indianos terceirizados.
Dentro das estações do metrô, bons músicos dão audições de peças clássicas e correm o chapéu. (Aqui não pode.) Nas paradas, o barulho dos trens é absurdo. (Aqui não é.) Transporte urbano funciona. (Aqui, não.) Nos ônibus viajam as pessoas mais distintas. (Aqui, só de carro).
Para ganhar umas moedas na rua a pessoa tem de oferecer alguma coisa em troca, com competência: tocar gaita de fole vestida de escocês, dançar um bom hip-hop, tocar bem sax ou violino, imitar estátua de gesso. Não há uma criança pedindo em lugar nenhum, nem deficientes. O poder público cuida deles. Não há vagabundos disfarçados de flanelinhas e guardadores de carro.
Há barulho demais nas ruas, de buzinas, sirenes, obras, carga e descarga, lixeiros, gritos agressivos. Voltar é um refresco.
Casais não se beijam nem se atracam nos desvãos do metrô, como aqui, e nos parques, nas filas, nos bancos. Há menos intimidade entre as pessoas.
Os italianos são os mesmos, a pizza é que é diferente.
http://veja.abril.com.br/vejasp/191005/cronica.html