
Walcyr Carrasco
Meu amigo André recebeu uma ligação de uma ex-namorada, carioca. Feliz da vida, ela anunciou a mudança para a cidade. Ele sentiu um calorzinho no peito. Iria reatar o romance? Veio um balde de água fria.
– Topa ser meu fiador?
O dito-cujo vive matando cachorro a grito. Tem um apartamento comprado em época mais abastada. Seu único bem. Se tivesse de pagar aluguel, não sobraria para a pensão do filho. Como negar? Articulou um "sim". Aliviado, não foi aceito por não possuir a escritura definitiva.
– Fiquei apavorado – confessou.
Segundo sei, um dos raríssimos casos em que a pessoa pode perder o único imóvel, de moradia, é tornar-se fiador, levar calote e não poder pagar. Por outro lado, é superdifícil alugar sem alguém que se disponha a garantir o valor. Existem alternativas excelentes, como o seguro-fiança. Ou o depósito de aluguéis antecipados em conta conjunta. Já lancei mão desses recursos. Nem todos os proprietários aceitam. Costumam exigir fiador. Lamentavelmente, o velho ditado muitas vezes está certo: quando se empresta dinheiro, o risco é ficar sem a grana e sem o amigo. Uma vez tive um inquilino. Todo mês atrasava. A fiadora era a sogra. Chamei o advogado. Dois dias depois, o inquilino ligou, furioso.
– Por sua causa vou me separar! Você acabou com meu casamento!
– Eu? O culpado é você, que nem me deu satisfação!
Haja bate-boca! Em outra ocasião, a imobiliária fez a ficha completa do sujeito. No emprego confirmaram o salário. Havia saído um mês antes. Algum amigo atendeu o telefonema e mentiu. Só compareceu com o primeiro aluguel. Saiu do imóvel e deixou as chaves na portaria do condomínio. Fiquei uma fúria. Para variar, a fiadora era a sogra. (Podem falar, mas sogra sofre!) Seu único bem era o apartamento. Quando ia chamar o advogado, recebi mais uma das inúmeras cobranças em nome do fulano. Da lanchonete da escola do filho. Não pagara sequer a merenda. Fiquei pensando: a família sem dinheiro algum. A velha mãe abrigando o casal, o neto. Não tive coragem de ir adiante. Fiquei no prejuízo.
Conheço um executivo que foi comprar um carro. Para sua surpresa, estava com o nome sujo! O amigo não tivera a gentileza de avisar do atraso de prestações por ele fiadas.
Dizer "não" sempre ofende. Há quem recorra a táticas:
– Sou sócio de uma empresa e pelo estatuto não posso fiar.
– A casa está no nome da minha sogra, que é uma fera.
Não disse? Sogra tem mil e uma utilidades!
Certas pessoas têm relações terríveis com dinheiro. Simplesmente, lançam mão do "devo, não nego, pago quando puder". E dane-se! Outras fazem justiça social à sua moda:
– Ah, ele não está precisando!
Pode até ser verdade. Mas cabe a cada um decidir o que vai fazer do próprio dinheiro. Não ao devedor. É o tipo de situação na qual velhas amizades são desfeitas.
Alugar um imóvel tornou-se uma epopéia. Muitas imobiliárias exigem duas escrituras definitivas por parte do fiador. Fica ainda mais difícil conseguir quem se habilite. Não sei legislar. Sinto que há alguma coisa errada na lei do inquilinato. Falta algum mecanismo para facilitar a vida. Alguma forma de não jogar a responsabilidade nas costas de um amigo cordial capaz de passar os próximos anos pagando uma dívida que não é sua. Talvez uma atitude mais rígida com os devedores. Em uma cidade desse tamanho, o problema é sério. Há quem deixe o imóvel vazio por medo de inquilinos!
É um cabo-de-guerra no qual quem sai perdendo em geral é quem teve mais boa vontade. Ser fiador é um susto! Não arrumar nenhum, pior ainda!
http://veja.abril.com.br/vejasp/220306/cronica.html