
Luís Fernando Veríssimo
A dona Nininha só tinha uma preocupação na vida, que era a saúde do marido. E este, que toda a vida gostara de brincar com dona Nininha, depois que se aposentou inventou uma brincadeira nova. Fingia que morria, só para assustar dona Nininha.
Dona Nininha voltava para a sala onde deixara o marido lendo o jornal e o encontrava com a cabeça atirada para trás, os olhos e a boca abertos, as mãos soltas de cada lado da cadeira, o jornal espalhado dramaticamente pelo chão. Dona Nininha dava um grito e corria para o marido, e este se dobrava de tanto rir. Coitada de dona Nininha.
Em meio a uma conversa, o marido deixava cair a cabeça para a frente e ficava imóvel. Dona Nininha chamava o marido. Chamava mais alto. Dizia "Ai, meu Deus" e o sacudia. Quando, já quase fora de si, levantava para ir buscar ajuda, ouvia a voz dele:
- Onde é que você vai, Nininha? Senta aí e fica quieta.
Uma vez, num almoço de domingo, toda a família reunida, justamente quando dona Nininha começava a se queixar do marido para a família, ele caiu de repente com a cara no prato de macarrão. Houve correria. Metade da família acudiu a suposta vítima de síncope e a outra dona Nininha, que quase desmaiara. E então o marido de dona Nininha levantou a cabeça, disse que o macarrão estava frio e pediu outro prato. E apontou para a cara da mulher, às gargalhadas. Todos acharam que era uma brincadeira de muito mau gosto, mas não puderam deixar de sorrir. Aqueles dois...
O filho mais velho tentou dissuadir o pai.
- Assim o senhor ainda mata a mamãe.
O velho não respondeu. Estava rindo tanto, só de se lembrar da cara de susto da mulher, que não conseguia responder.
Os netos é que ficaram entusiasmados. Tornaram-se cúmplices da brincadeira do avô. Davam palpites.
- Vô, finge que cai no banheiro. Faz bastante barulho. A vó vem correndo e te encontra estirado no chão.
- Peladão!
O velho ria e prometia que ia tentar aquela.
Todas as manhãs dona Nininha sacudia o marido, que acordava mas não abria os olhos. Só quando dona Nininha botava o ouvido contra o seu peito, já choramingando, para ouvir o seu coração, é que ele saltava e exclamava:
- Bom dia!
Dona Nininha, entre assustada e aliviada, gritava:
- Você ainda me mata!
- Ora, Nininha.
Um dia dona Nininha sacudiu, sacudiu, mas o marido não acordou mesmo. Veio o médico, veio toda a família. Prepararam o velho para o velório, fizeram arranjos para o enterro. E a todas essas dona Nininha desconfiada, com o olho vivo, decidida que desta vez não seria enganada.
Quem foi ao enterro conta que até a hora de fecharem o caixão dona Nininha ficou alerta ao lado do corpo, com um meio sorriso nos lábios. Se fosse fingimento, ele ia ver!
Coitada da dona Nininha.
("Novas Comédias da Vida Privada")