
História de dois infelizes condenados...
... que são salvos de modo imprevisto, no momento em que vão morrer. Por causa da sentença de um sultão encontramos, com surpresa, um famoso narrador de histórias.
Das Mil Histórias Sem Fim... é esta a décima sexta! Lida a décima sexta restam, apenas, novecentas e oitenta e quatro...
Conta-se - Allah, porém, é mais sábio - que o sultão Ali Machem, senhor de Khorassã, por um capricho extravagante, foi certa vez, acompanhado de seu grão-vizir, emires e conselheiros, assistir à execução de dois infelizes beduínos da tribo de Lenab.
Em dado momento, quando o carrasco, já prestes a desempenhar a sua torva tarefa punha termo aos últimos preparativos, o condenado que devia ser justiçado em segundo lugar, adiantou-se alguns passos, aproximou-se do rei e disse-lhe, depois de saudá-lo humildemente:
Deus vos cubra de incalculáveis benefícios, ó rei! Bem sei que poucos momentos me restam de vida. Já vejo Azrail, o Anjo da Morte, aproximar-se de mim. Desejo, contudo, merecer de vossa inexcedível bondade um último favor!
- Fala, beduíno - ordenou o rei. - Dize o que pretendes de mim. Jamais desatendo, quando possível, ao derradeiro pedido de um condenado!
- Rei magnânimo! - respondeu o árabe. - O meu desejo vale menos do que uma tâmara depois de um banquete do califa. Gostaria de ser executado antes de meu companheiro e não depois dele, como parece vai dar-se!
Não foi pequena a surpresa do monarca ao ouvir tão inesperada solicitação.
- Não tenho dúvida alguma em atender ao teu pedido - retorquiu o rei. - Acho-o, porém, bastante curioso e não encontro, de pronto, motivo capaz de justificá-lo satisfatoriamente.
Sem deixar transparecer a menor zombaria, o condenado assim explicou:
- A razão é simples, o sultão! Esse homem, que devia preceder-me no suplício, é um hábil contador de histórias e profundo conhecedor das lendas mais famosas do Islã. É meu intento, portanto, precedendo-o na morte, proporcionar a um árabe tão culto alguns minutos mais de vida!
O rei Machem - dizem as centenas de historiadores de seu tempo - era um soberano bondoso e justo. Ao ouvir a declaração do condenado sentiu que lhe competia, no mesmo instante, lavrar uma sentença digna do sucesso; e movido por tão humanitários sentimentos exclamou:
- Ualá! Se assim é, ó muçulmano, estão ambos perdoados! Por ser um grande narrador de lendas, o teu amigo jamais sofrerá castigo de morte; e tu também, fizeste jus ao perdão pela forma admirável com que acabas de demonstrar a tua generosidade.
O maldoso grão-vizir Kacem Riduam (Cheitã o castigue!), que até então se conservara em silêncio, dirigindo-se ao soberano, observou irônico:
- Permiti, o rei! - ao vosso humilde servo uma observação ditada pela longa experiência que tenho da vida e dos homens. Será, afinal, verdadeira a declaração desse impertinente beduíno? Não estaremos diante de uma mistificação habilmente tramada por um condenado astucioso que pretende apenas fugir, pelo oásis da vossa clemência, ao justo castigo de que se fez merecedor?
- A tua suspeita não é de todo descabida! - replicou o rei. - A hipótese que formulaste, meu caro vizir, pode corresponder a uma triste verdade, e é necessário que não exista o menor sulco de dúvida na areia clara do meu espírito. Vou, pois, exigir que o beduíno narrador de lendas dê, aqui mesmo, diante de todos nós, uma prova de seus talentos e habilidades.
E, dirigindo-se ao primeiro dos condenados, disse-lhe o soberano:
- Se não é falso o que a teu respeito alegou, há pouco, o teu bondoso amigo, conta-nos, ó filho do deserto, a mais formosa das lendas que conheces! A prova da tua eloqüência deverá ser forte e segura como a caravana de um emir vencedor.
Interpelado pelo sultão, o beduíno, depois de beijar três vezes a terra entre as mãos, assim falou:
- Conheço, o rei venturoso e digno! - sete mil e uma lendas, algumas das quais são tão belas que fazem lembrar os maravilhosos poemas do célebre Montenébbi (Que Deus o tenha em sua paz!). Vou contar-vos, porém, para começar, a última de todas essas maravilhosas histórias - que é, a meu ver, a mais rica em ensinamentos e verdade! Queira Allah que ela apague a dúvida do vosso espírito com a mesma facilidade com que o simum faz desaparecer no deserto os rastros das caravanas!
E, depois de pequeno silêncio, o árabe iniciou a seguinte narrativa:
continua ("O Rei da Cara Engraçada")
(“Mil Histórias Sem Fim”)