Do prazo de Deus

 

Deus é minha luz e minha salvação. A quem temerei? Deus é o baluarte de minha vida. De quem terei medo? David (Salmo 25).

 

Sucedeu que, indo a Roma, o rabi Samuel achou casualmente rica pulseira pertencente à rainha. Dirigiu-se o rabi, sem demora, ao palácio onde pretendia restituir a jóia. Em meio do caminho, porém, encontrou um arauto que percorria a cidade, de rua em rua, proclamando:

Quem restituir a pulseira, dentro de trinta dias, receberá, como recompensa, quinhentas moedas de ouro. Aquele que conservar, em seu poder, a jóia, além desse prazo, se f or descoberto, será decapitado.

Ao ouvir aquela ameaça, rabi Samuel desistiu de levar a termo o seu louvável intento; conservou a jóia e só a devolveu no fim de trinta e um dias, isto é, depois de terminar o prazo da proclamação.

Informada do caso a rainha mandou chamá-lo e interpelou-o numa afável ameaça:

- Não estavas, ó judeu, informado da minha decisão?

- Estava ciente de tudo - respondeu o rabi.

- Por que, então, não cumpriste a ordem? Que motivo te levou a guardar a terminação do prazo por mim fixado?

O douto israelita explicou, sem afetação e sem cálculo:

- Cumpria-me devolver a jóia por temor de Deus. Mas se eu fizesse a devolução dentro dos trinta primeiros dias ouviria de todos: - "Ele assim procedeu por temor da rainha e não por temor de Deus". Sobre meus amigos e discípulos causaria certamente, a minha atitude, deplorável impressão. É meu dever educar aqueles que vivem sob minha orientação. Várias vezes eles têm ouvido de mim: "O temor de Deus é o princípio da sabedoria". Ora, o temor de Deus é incompatível com as ameaças humanas. Aguardei, portanto, que o vosso prazo terminasse e, reiniciado o prazo de Deus, deliberei restituir imediatamente a jóia.

E o rabi concluiu elevando intencionalmente a voz, com fulgurante convicção nos olhos:

- A devolução só deveria ser feita dentro do prazo de Deus!

Sorriu a rainha ao ouvir aquela resposta, e resolvida a confundir o filósofo interpelou-o novamente, num desvanecimento ingênuo:

- E se o prazo, ao invés de se limitar a trinta dias, fosse de dez, vinte ou trinta anos?

De qualquer modo - persistiu o rabi Samuel, com gravidade e segurança - o vosso prazo seria finito, ao passo que o prazo de Deus só prescreve com a Eternidade!

A rainha, surpreendida por tão sábias palavras, vencida pela sublimidade do conceito, exclamou comovida, no seu deslumbramento:

- Louvado seja o Deus dos judeus!

 

O episódio é encontrado em T. J. Nana Mezia, 2:5. Cf. Lewis Browne, ob. cit. "Sabedoria da Gemara", pág. 156. Observação: As abreviaturas T. J. e T. B. indicam respectivamente: "Talmude de Jerusalém" e "Talmude de Babilônia".

 

 

("Lendas do Povo de Deus")

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