
Ahmed Ben-Thulum, chefe de notável dinastia que reinou durante muitos anos no Egito, tinha por vezes lembranças e idéias tão extravagantes e originais que deixavam perplexos os vizires e cortesãos de sua corte.
Um dia, como se encontrasse na varanda de seu belo palácio de Alepo a admirar o movimento contínuo do populacho, na famosa e secular Praça de Sultaniyé, dele se acercou o judicioso Abdul-Mahomed, seu conselheiro e amigo, e disse-lhe:
- Só existe força e poder em Allah, o Altíssimo! Não há criatura humana capaz de vencer a Fatalidade! O que nos aconteceu ou vai acontecer já está escrito - maktub! - no Livro do Destino!
- Acreditas então, meu amigo - observou o sultão com certa ironia - que são irrevogáveis os decretos do Destino? Embora professe com sinceridade a religião de Maomé (com ele a oração e a paz!) e me considere fervoroso muçulmano, não sou fatalista intransigente. Estou convencido de que os reis, por exemplo, graças à força de que dispõem, podem alterar facilmente o destino de uma criatura! Queres uma prova, segura e irrefutável, do que assevero?
E, como Abdul Mahomed ficasse silencioso, a fitá-lo com mostras de não pequena admiração, o soberano prosseguiu:
- Vou já alterar radicalmente a vida de um homem qualquer do povo. Estás vendo aquela fonte lá embaixo no meio da Praça de Sultaniyé? Pois bem, ao primeiro homem que a partir deste instante for saciar a sede ou fazer abluções naquela fonte, mandarei dar duzentos dinares de ouro e transportá-lo, ainda hoje, para a Antioquia! Verás se sou ou não capaz de modificar o destino, bom ou mau, de uma criatura de Allah!
Os cortesãos que se achavam em palácio, informados do novo capricho do sultão, afluíram à varanda, aguardando curiosos o curso daquele desígnio.
Momentos depois um velho mercador sírio que vinha descuidado pela Rua de Bab-Nerab, na ignorância completa do que se passava no palácio, dirigiu-se vagarosamente à fonte de Sultaniyé e, depois de lavar o rosto e as mãos, bebeu regaladamente um pouco da água clara e límpida que ali corria.
O orgulhoso monarca, que tudo observara, deu as necessárias ordens a um de seus oficiais, e o velho mercador foi imediatamente levado à sua presença.
Disse-lhe, então, sem mais preâmbulos, o caprichoso sultão:
- Vais receber, o muçulmano! duzentos dinares de ouro e, por minha conta, uma escolta do palácio vai conduzir-te, hoje mesmo, para a Antioquia!
Notaram, porém, os vizires e nobres muçulmanos presentes que o sírio não parecia surpreendido nem preocupado com as decisões caprichosas e inesperadas do califa; inclinou-se humilde e, como se quisesse dar prova de profunda gratidão, beijou duas vezes a terra junto aos pés do soberano.
- Por Allah! – exclamou o sultão. - Não estás, ó mercador, contente com o belo pecúlio que acabas de receber? Consideras inoportuna esta viagem até Antioquia?
- Contente estou, o Rei Generoso! - respondeu o velho traficante. - Há dois anos que esperava ansioso por este chamado de Vossa Majestade!
- Como assim? Contavas, então, como coisa certa receber esse dinheiro?
- É verdade! - continuou o ancião. - Meu nome é Khalil Nahib e sou mercador em Antioquia. Tenho uma pequena tenda nas margens do Oronto, junto ao Velho Serralho. Há dois anos vendi ao jovem Harun, o filho mais moço de Vossa Majestade, uma partida de jóias no valor de duzentos dinares de ouro. Como não dispusesse, no momento, dessa importância, disse-me o nobre e generoso Harun que viesse recebê-la em Alepo, no palácio real. Há dez meses que vivo nesta cidade, e muitas vezes tenho tentado falar a Vossa Majestade, mas sou sempre impedido pelos guardas e porteiros deste palácio. Hoje, finalmente, baldadas todas as esperanças, resolvera voltar para Antioquia com alguns amigos e viajantes. Quando ia, porém, agora atravessar a Praça de Sultaniyé, depois de ter feito as abluções usuais na velha fonte, de mim se aproximou um guarda que me conduziu aqui à presença de Vossa Majestade. Eis por que não foi surpresa para mim receber, juntamente com a quantia de duzentos dinares, uma ordem de regresso para a Antioquia! Os dinares me eram devidos e precisamente para a Antioquia ia eu!
- Louvado seja o Onipotente! - exclamou o sultão. - O caso singular que acaba de ocorrer com este velho mercador vem mais uma vez provar que os homens, sejam escravos ou reis, nada podem contra o Destino! Estava escrito - maktub! - que este mercador haveria de receber o dinheiro que eu lhe devia - e fui eu próprio quem lhe pôs nas mãos a valiosa quantia!
E concluiu atemorizado:
- Queira Allah, o Exaltado, seja esta a última dívida que a Fatalidade me obrigue a pagar!