Divagações de um idoso

 

Estou na idade em que as pessoas começam a se preocupar com o seu fim, com o que acontecerá nos próximos anos ou meses – ou dias...

Afinal, a despeito de ter sido bem ampliada a expectativa de vida do ser humano, nada pode garantir que chegaremos aos oitenta, ou aos noventa.

Eu, por exemplo, passei por uma cirurgia cardíaca para revascularização da aorta – nome científico das famosas ‘pontes’, das quais eu recebi três.

Isso acordou-me para uma realidade: eu não sou assim tão forte e imune a doenças como eu pensava. Aliás, a coluna tem me incomodado muito e sinto dores atrozes.

O que vai acontecer comigo? Vou ficar gagá, surdo, rouquenho, tremendo, entrevado numa cadeira de rodas, precisando do auxílio de um enfermeiro para as necessidades mais básicas?

E o carro? Até quando poderei dirigir e ‘sair por aí’, como eu gosto de fazer, livre, leso e solto?

E quanto ao computador, à televisão, aos discos, aos livros – ah, os livros... ? - Até quando terei olhos ou ouvidos para eles?

Estou esperando o dia em que um de meus filhos ou netos irá chegar perto de mim e dizer bem alto, para eu poder escutar: “Você fez xixi no pijama”, ou “Tem um grão de arroz no canto de sua boca” ou “Pai, olha fulano na sua frente. Está perguntando como você está”.

Chego a pensar que tudo isso parece vergonhoso e humilhante. Já “dei ordens” para me internarem numa casa de repouso, onde há pessoas exatamente para atender os ‘velhinhos’. Aliás, "in off", nem tenho certeza se a outra opção - ser mantido em casa - faria, realmente, a felicidade dos parentes com os quais fosse obrigado a conviver. Temos que aprender com os outros, gente. Com os Estados Unidos, por exemplo. Lá é normal que os 'velhinhos" sejam mantidos em casas de repouso, pois todas as pessoas têm atividades, afazeres, casa para cuidar, filhos para criar, e não podem ficar perdendo tempo com um resto de gente que não enxerga bem, não fala bem, não anda bem, não faz nada sozinho... Afinal, ninguém é de ferro!...

É, parece assunto mórbido? Mas que é sério, é.

Não é medo de morrer, é o meu relacionamento com as pessoas, o meu comportamento em público que me preocupa.

Veja a situação do Christopher Reeve (o Superman), por exemplo. Agüentou-se vivo desde 1995, quando, em razão de ter caído de um cavalo, ficou tetraplégico e nove anos depois morre do coração. Se tivesse morrido naquela ocasião não estava dando trabalho para as pessoas.

E o meu pai? Um belo dia, cerca de dez anos atrás, ia, aos oitenta e alguns anos de idade, feliz da vida dirigindo seu carro pela cidade. De repente, numa falência momentânea dos sentidos, atravessou a preferencial e foi bater em quatro ou cinco carros após a esquina. Sorte que não colidiu na avenida.

Resultado: foi aconselhado pelo Delegado a não mais dirigir, pois o fato poderia se repetir. Aliás, mesmo que tentasse, não conseguiria mais a renovação de sua CNH.

Daí em diante foi ficando encorujado, ensimesmado, foi definhando, passou a viver na dependência dos outros, só andava em cadeira de rodas.

É bem verdade que faleceu com noventa e quatro anos mas, no dizer do salmista, não sem muita ‘canseira e enfado’ (Salmo 90, versículo 10).

Eu sei que pode parecer fantasia ou lucubração mental. Mas estava outro dia imaginando a minha nora com noventa anos, toda enrugadinha, sendo atendida pela filha. Ou ainda minha neta, que hoje tem quase três anos, na mesma situação.

Bem, pelo menos eu não vou presenciar essas situações desagradáveis. Felizmente!

 

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