O distribuidor de felicidade

 

Não me pergunte, pois nem eu tenho idéia exata se isso que vou narrar foi um sonho, ou uma visão, ou uma revelação. Simplesmente vou escrever sobre aquele homem.

Ele tinha o dom de fazer as pessoas felizes. Como naquele dia em que, apenas olhando e falando baixinho, desentupiu um vaso de banheiro em poucos segundos. Isso sem usar as mãos...

Nessa ocasião percebeu que o dono, ou dona, daquela casa não sabia distinguir entre a sujeira de uma latrina e a limpeza de uma pia ou de uma geladeira: constatou surpreso que havia dentro do vaso alguns embrulhos com verduras e carnes. Tirou os pacotes de lá com um gesto e colocou-os, já limpos e esterilizados, em lugar adequado.

As crianças o adoravam. Ele sabia o que elas queriam e nem precisavam pedir ou dizer nada. O simples olhar daquelas cabecinhas louras ou morenas já dizia o que queriam.

Assim, era uma bonequinha para cá, um carrinho ou um aviãozinho para lá...

Mas nem só os pequeninos eram atendidos por ele. Todas as pessoas, sem distinção de sexo ou idade, eram alvos de seus pequenos gestos miraculosos.

Não havia um lugar determinado para acontecerem; não era em uma casa, nem em uma igreja ou em uma tenda. Era em qualquer lugar: na rua, andando despreocupadamente, cercado por interessados ou curiosos.

Em poucas palavras: tudo aquilo se traduzia por gestos simples, normais e despretensiosos.

Certo dia, no que parecia uma reunião de algumas famílias – um aniversário, talvez, - querendo atravessar de um lado da mesa para o outro, simplesmente levitou do solo, colocou-se em posição horizontal e, de maneira muito natural, foi para onde queria, onde pousou vagarosamente.

Nem ele sabia explicar bem aquele fenômeno. E nem tentava, pela espontaneidade com que sucediam os fatos, uns atrás dos outros.

Lembro-me de que, certa ocasião, ocorria no meio da rua o que parecia um assalto, com perseguição a homens armados, em um automóvel. No meio da rua estavam algumas pessoas que, sem estar participando do episódio, viam-se na iminência de serem atropeladas e mortas pelos marginais. Ninguém precisou dizer nada: a um simples gesto do homem, o carro estacou abruptamente, quase se encostando naquelas pessoas, sem, contudo, feri-las.

Sonho? Visão? Revelação? Não sei dizer.

 

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