Distrações

 

Luís Fernando Veríssimo

 

Um dia talvez se descubra para o que servem, ou serviram, coisas biologicamente inexplicáveis como o apêndice e as amígdalas. Há quem diga que Dew criou o apêndice e as amígdalas para dar de comer aos cirurgiões. Não sei. 0 fato é que, por exemplo, os mamilos masculinos e as unhas do pé só podem ser descritas como distrações da evolução. Foi esquecimento. Os mamilos nos homens seriam remanescentes de uma época em que, supostamente, todos os seres humanos eram hermafroditas e os bailes eram muito mais divertidos. As unhas dos pés serviam bem aos macacos mas nada justifica a sua existência em humanos nos dias de hoje ainda mais pintadas. Mas o maior exemplo de desleixo da evolução é a coluna vertebral. A evolução determinou que o homem andasse ereto sobre os dois pés, mas não adaptou nossa coluna para suas novas funções. Somos bípedes com uma estrutura de quadrúpedes, e como dói. Nossa coluna nos manda andar de quatro e o resto do corpo - para não falar nas regras da boa educação - nos diz para andar de pé. E não há sinal de que a coluna vertebral esteja se adaptando à nossa condição vertical. É cada vez maior o número de pessoas que sofrem da coluna. Ou seja, aumenta a pressão da coluna para que todos voltem a andar racionalmente sobre quatro patas. A biologia, ai de nós, também é reacionária.

 

A voz

 

Não sei se, entre os testes que um piloto precisa fazer para trabalhar em aviões de passageiros, está o teste da voz máscula. Imagino que sim. Nós todos temos uma imagem idealizada do homem que, nos controles do avião, está no controle das nossas vidas, e esta imagem é transmitida pela voz. Gostamos de saber, pelo timbre e pela entonação, que há alguém de confiança lá na frente. E se o piloto for uma mulher, que seja uma de voz forte. Nunca ouvi um "Senhores passageiros...", com que o comandante normalmente começa sua comunicação conosco, dito com voz fina. Se isto acontecesse, o pânico tomaria conta dos passageiros e ninguém ouviria o resto da mensagem. Ou existe alguém na cabine cuja única função no vôo é dublar um eventual comandante de voz fina, quando for o caso, ou só passa no teste para piloto comercial quem tem voz grossa. Mas a verdade é que a voz diz pouco sobre uma pessoa. Ninguém sabe que voz tinha o Napoleão, por exemplo. Relatos da época não são confiáveis. Se o Imperador tinha uma vozinha é improvável que a informação constasse das descrições oficias, e nas não-oficiais podia ser intriga. Supõe-se que Moisés e os profetas bíblicos tivessem voz forte, pois falavam para multidões sem amplificação, que se saiba. Difícil imaginar um César sibilante ou um Felipe fanhoso: mas nada nos garante que Alexandre Magno não falasse como o Pernalonga. De quase todas as grandes figuras do século 20 se conhece a voz, mesmo que em gravações precárias, e em muitos casos a voz não tem nada a ver com a figura. Trotski não tinha voz de Trotski. Franco não tinha voz de caudilho - talvez de tia de caudilho. Em alguns casos a voz e a figura eram uma coisa só. A voz e a retórica de Mussolini erigiram o fascismo no ar antes de ele se institucionalizar, a voz e a retórica de Hitler invadiram a Europa artes das suas divisões "panzer". Os dois tinham a cara da voz e a voz da cara.

 

O único

 

Não é exatamente aquele momento sobre o qual escreveu o Millôr, em que você sente que é feliz como nunca foi e nunca mais será. É aquele instante em que a coisa está no ponto de se transformar no seu excesso ou no seu oposto, o ponto em que você deveria  largar tudo e se retirar com a sua reputação intacta e a sua dignidade preservada – se conseguisse identificá-lo. Mas só consegue identificá-lo quando ele já passou. Por esse raciocínio pode-se concluir que o único presidente do Brasil de memória recente que não ficou comprometido no cargo foi o Tancredo Neves. 

 

("O Estado de São Paulo – Cultura", 22/10/2006)

 

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