Você deve estar imaginando que o tema é novo, digamos, surgiu com as ações da Klu Klux Kan, com a morte de Martin Luther King, com o “apartheid” da África do Sul ou com a AIDS, ou mesmo com a revolução gay.
Puro engano. Jesus Cristo é o verdadeiro precursor, em se tratando do tema.
Quando o Mestre se refere ao “Bom Samaritano”, ou a Lázaro, o leproso, que quando morreu foi recolhido ‘ao seio de Abraão’, enquanto o rico foi para o Ades (inferno), Ele já está nos transmitindo lição de igualdade e tolerância.
Idêntica mensagem nos transmite a parábola do fariseu (Lucas 18) que foi ao templo e orava assim: Senhor, graças lhe dou que não sou como os demais homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem ainda com este publicano que está do meu lado. Jejuo duas vezes na semana, e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Ao passo que o publicano, de cabeça baixa, humildemente dizia: Senhor, seja favorável a mim, pois sou pecador. Jesus conclui afirmando que o publicano saiu do tempo justificado e o fariseu não.
Na parábola sobre o Bom Samaritano, temos uma situação em que um viajante foi violentamente espancado por ladrões, que o deixaram como morto.
Passaram ao seu lado várias pessoas, que não o socorreram, entre elas um sacerdote (que vivia pregando as boas ações) e um levita (que defendia as boas atitudes apregoadas nas antigas leis). Entretanto, o coitado do viajante foi socorrido logo por um samaritano, que não era bem visto pelos judeus. Esse homem levou-o para uma hospedaria, recomendou-o ao proprietário e pagou todas as suas despesas.
Jesus, é evidente, concluiu afirmando que a verdadeira ‘boa ação’ foi praticada exatamente por um estrangeiro.
Não fiquemos somente com os preceitos bíblicos, mas mencionemos a própria lei, que garante a todas as pessoas o direito de serem tratadas em igualdade de condições, o que não impede, contudo, que hoje em dia a discriminação e o preconceito estejam elevados a N-potência, tornando a discussão ainda mais acalorada.
Ocorre que para aceitar como seu igual os negros, os 'latinos', os moçambicanos, os HIV-positivos, os homossexuais, e até - pasme - os 'pobres' e os deficientes é necessário não apenas boa vontade, mas acima de tudo considerar-se igual a todos os demais seres humanos - exatamente como ensinou o Mestre - e sujeito aos mesmos problemas e situações que acometem a todo mortal.
Quer ver uma outra forma de preconceito? O que você acha da idéia de que é necessário apresentar certidão de casamento para receber a bênção do Sacerdote? Por incrível que pareça, isso é ainda hoje uma questão polêmica no seio das igrejas cristãs. A Bíblia nada diz a respeito. Aliás, nos tempos de Jesus não havia registros de casamento como os temos hoje, sendo que as ‘cartas de divórcio’ constantes da lei mosaica (Velho Testamento) não passavam de libelos acusatórios contra as mulheres adúlteras (só as mulheres...). Não creio que alguém tenha autoridade para sonegar uma bênção (que nem é dele próprio, mas de Deus) em nome de uma pretensa moral.
Resumo: os homens (sejam cristãos, judeus, muçulmanos, budistas) deveriam viver na conformidade do que pregam os seus livros de ensinamentos, para haver coerência entre o que aprendem, o que pregam e o que vivem - apesar de que, na cabeça de alguns, estas três coisas não têm, necessariamente, que andar juntas...
Parodiando o termo tantas vezes usado nos últimos dias, você acha que caberia aqui a expressão 'pessoa, ou homem religiosamente correto'?
Castelo em Ravena - Itália