Diferença de caixa

 

Nelson Nicola Varani (*) 

 

Era a década de 1970 e eu trabalhava na agência Videira, interior de Santa Catarina. O prédio tinha sido inaugurado havia pouco tempo e os funcionários atendiam um grande número de clientes. Em dias de pagamento de custeio das lavouras o salão ficava lotado de agricultores e era uma barulheira infernal. Os caixas se desdobravam para fazer as grandes filas andarem, pois ainda não existia a fila única, hoje tão usual em todos os lugares. Cada cliente escolhia a fila menor ou, às vezes, o caixa de sua simpatia.

Enquanto um dos caixas efetuava o pagamento a um cliente, um outro colono, que estava logo atrás, falou ao recebedor: "Conte muito bem o dinheiro. No ano passado, quando recebi o meu, ao chegar em casa constatei que faltavam 100 mil cruzeiros". Imediatamente um terceiro cliente entrou na conversa e perguntou se ele não tinha reclamado. Diante da afirmação de que não reclamara porque não havia contado o dinheiro na hora, e, depois, achava que não iria ser atendido, o segundo interlocutor passou a defender o Banco, afirmando em alto som que "o Banco não logra ninguém; se você tivesse reclamado, receberia, seria reembolsado, com certeza".

Antenado na conversa dos três, o caixa dirigiu a palavra ao cliente que alegou ter recebido dinheiro a menos. Pediu que o acompanhasse até a plataforma, onde passou o assunto para o coordenador. Este imediatamente mandou buscar a ficha "diferenças de caixa" do dia do atendimento àquele cliente. Ficou constatado que realmente havia uma sobra de 100 mil cruzeiros e alguns centavos. Estava quase resolvido o caso, o cliente seria ressarcido.

Mas faltava ainda confrontar o homem com o colega que o atendera à época, para ficar tudo esclarecido. Chamaram, então, o caixa que constava no registro do dia da diferença. Quando cliente e funcionário ficaram frente a frente, o colono afirmou categórico: "Não, não foi esse não! Era um feio!"

A agência não levou em conta essa afirmação, que serviu somente para gozação, pelos colegas, com o "caixa feio". O episódio, além de render motivos de chacotas, serviu para reforçar na clientela o conceito que o Banco já possuía e que fora apregoado pelo outro correntista - de que o Banco do Brasil não logra ninguém. Mais uma vez isto ficara provado. 

 

(*) O autor é funcionário aposentado do Banco do Brasil. Trabalhou em Videira (SC), Esteio (RS) e no Cesec Bairro Anchieta, hoje Gerel. Atualmente curte sua aposentadoria morando em Porto Alegre. 

 

("bb.com.você", março/abril 2005")

 

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